22 de setembro de 2010

PAPA FIGO? CRUZ CREDO


Aquela história de lobisomem deixou nos ares da minha cidade um quê de assombração! 
Principalmente nas crianças. Os comentários da criançada giravam em torno do mundo vai se acabar e era uma expectativa de deixar gente com os cabelos em pé. Algumas delas até sabiam quando e como seria.
E fossem perguntar quem disse, elas respondiam. Foi fulano que ouviu não sei aonde, que o mundo vai se acabar. 
E nesse clima de medo, tinha que surgir para apimentar os ânimos, as histórias do PAPA-FIGO.
E quem já não ouviu falar nesse personagem tão lendário, que já fez com que muita criança se recusasse a sair de casa, e até mesmo se tornar comportada, ou a comer aquela comida que não gostava tudo por causa do papa-figo?
Eu pelo menos, só eu e Deus sabe, por quantos momentos ruins passei com estas histórias na minha mente. Medo de ir prá escola, medo de voltar prá casa, e ser pega de surpresa por aquele ser horroroso com um saco nas costas, ou de repente o mundo acabar e eu estar longe de casa.
Casa da Chica? Nem pensar! Não queria saber da Chica nessas horas. Ficava em casa ajudando minha mãe. 
Varria a casa, tirava o pó dos moveis, lavava a louça, secava e guardava. Trocava as camas, nunca vi alguém tão interessada em ajudar a mãe, quanto eu.
É que o papa-figo só gosta de menina que não ajuda as mães. Que fala demais, assim diziam.

- Mamãe, a senhora já viu o papa-figo?

- Eu mesma não vi. Mas minha irmã que era muito mal educada viu.
É um homem barbudo, feio, com mais de 2 metros de altura e um saco enorme nas costas. Só não levou minha irmã porque meu pai chegou bem na hora!
Imagine o filme que passava na minha cabeça naquela hora. E lembro muito bem que ao deitar, não esquecia jamais de olhar dentro do guarda roupa, ou debaixo da cama se o tal papa-figo não estava por ali. Cruz credo!

16 de setembro de 2010

CHICA E AS HISTÓRIAS DE LOBISOMEM


E assim a vida na minha cidade voltava ao normal. Durante o dia a criançada ia pra escola, as mães iam ao mercado fazer compras, outras iam pras lojas comprar tecidos para fazer roupas, outras iam pras boutiques ver as novidades, outras ficavam em casa cuidando do lar.
Os homens saiam pro trabalho, outros sentavam na pracinha pra falar de futebol e das mulheres feias e bonitas da cidade. À noite as moças saiam pra dar umas voltas na pracinha, outras iam se encontrar com o namorado, outros iam pra escola e outros iam pras igrejas.

Tudo na santa paz, porque o lobisomem não quis ficar por ali não.
Acho que ele não tinha quem assustar, e para não morrer de tédio se mandou!
Depois acredito que não ia trocar o seu juízo com uma muriçoca.
Voltei a freqüentar a casa da minha Chica do coração, era chegar em casa da escola, almoçar, fazer a lição e depois mostrar pra minha mãe se estava correta e em seguida:

- Mamãe posso ir ajudar a Chica?

- Vá, mas já sabe, cinco horas em casa!

A semana foi pequena para tantas histórias de lobisomem que a Chica tinha pra contar! Inclusive de um, que entrou na casa da mãe dela, e comeu a comida toda e deixou todo mundo com fome!
Eu já andava de olhos arregalados, assustada, olhando atrás das portas e embaixo da cama pra me certificar que por ali não tinha um escondido!

Outro, assustou uma vaca e a coitada sem ter para onde correr entrou na casa da irmã da Chica e tiveram que deixá-la ficar uns dias no quintal da casa, porque não tinha como tirá-la de lá. Nem mesmo o dono dela conseguiu!
Foi quando tiveram a idéia de desenhar um lobisomem num papel e mostrar prá vaca que convenceram ela a voltar pra casa!

Às cinco horas em ponto, se não estivesse a caminho de casa o portador vinha atrás:

- Como é. Não tem mais casa não?

- Ou quer que traga a mala?

E sem responder uma só palavra voltava pra casa. E se não voltasse no mesmo momento não poderia retornar pra casa da Chica no dia seguinte.
Na verdade estava curiosa pra saber de mais estórias de lobisomem.

Cruz credo! O terço da minha mãe não saia do meu pescoço!

Trem da Alegria
O Lobisomem


13 de setembro de 2010

UM HOMEM DE NOME LOBISOMEM



Pois é, ultimamente não estava querendo sair muito de casa, tudo por causa de uns boatos que andavam correndo pela minha cidade.

Diziam que por ali a meia noite, andava um lobisomem! E eu só de pensar já sentia arrepios.
Na escola o assunto era um só. O guarda da noite foi quem falou que bateu de cara com um homem de nome lobisomem.

O coitado sequer teve tempo de abrir a boca pra perguntar quem era, e o tal lobisomem colocou aquelas mãos horrorosas pra fora e fez o coitado chegar em casa com o coração saindo pela boca!
No outro dia, o assunto era um só! O lobisomem invadiu a minha pequena e pacata cidade, que não devia um centavo pra ninguém e agora se via com um problemão desses!

Todo mundo agora tratava de reforçar as trancas das portas e lá em casa não foi diferente!
Não se via mais um filho de Deus sentado na calçada falando da vida alheia. E pra ser sincera, quem ia querer se ocupar da vida de ninguém com um assunto desses pra se preocupar!
Na Igreja, na missa das seis horas, o padre era obrigado a celebrar a missa somente para o sacristão porque os fiés mesmo, que era bom, não tinha nenhum pra rezar um pai-nosso!

Até o sacristão queria que o Padre rezasse a missa de portas fechadas, com medo do lobisomem aparecer e acabar com a Igreja. Mas na missa do domingo, o padre tentava acalmar e explicar a aquela gente, mas ao sair da Igreja dava o dito por não dito e preferia não arriscar!

E foi nesse reboliço todo que de noite ninguém dormia direito vigiando as portas. Na rua, não existia uma alma viva. Somente o vento, para deixar aquela situação de cabelo em pé.
Prá casa da Chica, nem pensar, principalmente porque fiquei sabendo que o lobisomem gostava mesmo era de menina que perguntava muito, e de cabelo curto com um centímetro de franja. Eu de minha vez, pegava o terço da minha mãe e ficava pedindo perdão a Deus dos meus pecados.

E foi numa certa noite de lua cheia que o negocio esquentou de verdade, ouviu-se uma gritaria no meio da noite. Imagino a quantidade de ouvidos afinados para ouvir a voz do lobisomem que estava assustando uma cidade inteira e não dava sinal de vida!
Era a voz da muriçoca, (moradora de rua)batendo boca com o tal de lobisomem!
Venha pra cá seu estrupício, 
Venha se é homem!
Venha aqui encarar a muriçoca,
Tá com um mês que não saio de casa, por sua causa!

Mas hoje a porca torce o rabo e nós vamos decidir quem é que manda aqui de noite!
Essa cantiga durou a noite toda, ninguém dormiu, ninguém saiu para ver. 
Só sabemos que o lobisomem não quis enfrentar a muriçoca e pelo visto desapareceu.
A muriçoca amanheceu como sempre dormindo na calçada da Igreja.
E ninguém ouviu mais falar no lobisomem.
Maria de Lourdes

11 de setembro de 2010

CORTE DE MEIA CUIA



Aquele corte de cabelo, me fez passar maus pedaços. Em casa, na escola, na rua, era mesmo de chamar atenção.
E como meu olho, era olho de raio-X, se é que raio-X tem olho, se tem era igualzinho ao meu. Conseguia ver o olhar da pessoa e o pensamento também. Na escola é que foi feio mesmo, três colegas de classe tiveram três dias de suspensão por causa do meu cabelo. A sala de aula virou palco de algazarra e eu o palhaço.
Tinha uma mulher moradora de rua, que tinha o cabelo bem parecido com o meu e o pessoal a chamava de muriçoca. E para infelicidade minha resolveram me chamar de a filha de muriçoca.
Muriçoca deu a luz e ninguém sabia onde estava a filha.
Olha ela aí.
Chegou a filha da muriçoca.
Era alguém mexer com meu cabelo e em dois minutos estava na sala do diretor, que ao me ver perguntou se tinha tido piolho.
Como ninguém podia me ajudar e como eu não podia levar esse problema pra casa, fui à delegacia chamar a policia.
O delegado ao ver aquele corte Chanel de meia tigela, ou melhor dizendo, de meia cuia, perguntou:
-Mas, minha filha! Quem fez um estrago desses na sua cabeça?
Eu respondi categórica: fui eu mesma com a tesoura e uma cuia. E lá fiz a minha reclamação, fomos até a escola, conversaram com o diretor, e depois me levaram em casa. Na minha pequena cidade do interior, todos se conhecem e todos são amigos uns dos outros e se ajudam e partindo desse principio ninguém mais riu do meu cabelo.
Minha mãe me levou a cabeleireira, e ela fez o que era possível fazer! O problema mesmo era a franja de um centímetro. Mas, passou e nunca mais inventei moda!

8 de setembro de 2010

CORTE CHANEL


A minha vida era uma festa só. Escola, casa da Chica, minhas roupas de bonecas, ajudar minha mãe na casa e vigiar a funcionária da minha mãe, que tinha dias que comia a carne toda e deixava só o caldo pro almoço.

A minha mãe estava muito ocupada com o bebê, e eu com a corda toda para revirar a casa procurando novidades.
Nessa época meus cabelos eram grandes e loiros. Era o orgulho da minha mãe pentear meus cabelos e fazer cachos.

Eu não gostava muito disso, pois lembro que nessa época estava pensando mesmo em ficar grande para vestir aqueles vestidos lindos que a Chica fazia usar sapato alto e colar.
E foi com essa idéia na cabeça que um dia resolvi eu mesma cortar o cabelo porque estava na moda corte Chanel e eu achava lindo demais!

Deduzi que para cortar o cabelo daquela maneira redondo, era fácil. Eu mesma resolvi, procurei feito louca uma tigela pequena, não sei onde ouvi falar em cabeça de cuia.
Alguém por acaso sabe o que é uma cuia? Pois eu, se não tivesse investigado na época também não saberia, e deduzi que para cortar o cabelo eu precisava de uma cuia.
Chegando na casa da Chica perguntei:
Chica, o que é cabeça de cuia?
E ela para se ver livre de tanta pergunta difícil respondeu:
É cabeça redonda, e aí conclui o meu raciocínio.
Consegui uma cuia pequena coloquei na cabeça e com a tesoura fui cortando o tesouro da minha mãe, que era meu cabelo.
Não sei o que fiquei parecendo, só sei que a minha mãe quase que quebra o resguardo.
Foi um deus nos acuda, a cidade inteira ficou sabendo da minha armação e na escola nem falo!
A franja se tinha um centímetro de largura era muito!
Que coisa hem!

* Na minha cidade do interior quebrar o resguardo era quando a mulher dava a luz e passava um nervosismo muito grande então dizia-se que podia quebrar o resguardo.
A cuia vem de uma planta chamada cuieira e o costume de utilizá-la como utensílio doméstico vem dos indigenas.
Pega-se o fruto e divide-se ao meio para formar dois recipientes (tipos tigelas)

Foi nuns tempos lá pra traz Que olhamos para a lua Com olhar de quem morreu Você dizia ó lua linda Eu respondia, ela é somente sua Era...