9 de maio de 2012

MOÇA VÉIA NÃO. A HISTÓRIA HOJE É OUTRA



Pra ver mesmo como são as coisas: o que é que está faltando acontecer neste mundo de Deus? Assim diziam as avós.
Imagine se elas vissem o que acontece hoje. Diria que esse mundo está mesmo virado de cabeça pra baixo.
Pois se esta estória de moça veia era uma preocupação de muita gente, eu mesma tinha até um caderno cheio de orações e simpatias pra S. Antonio, que dizem ser o santo casamenteiro. E se eu tinha esse caderno era porque a preocupação era grande, e com certeza copiei de alguém que vivia no mesmo dilema que eu.
Era um tal de pegar o S. Antonio e colocar de cabeça pra baixo,
De afogar o santo em um copo d’água,
De tomar o menino Jesus do colo do santo,
De colocar o santo dentro do congelador
E muitas malvadezas que nem é bom contar, tudo pra não ser chamada desse nome aí: (MOÇA VÉIA).
Sem contar nos sermões e nas ladainhas que o coitado do santo era obrigado a ouvir, porque sendo estátua de que jeito podia correr?
Começava-se rogando:
Ò meu santinho! Tenha pena de mim, não me deixe passar por esta humilhação, já ando na rua desconfiada, estão me chamando de vitalina, de titia, de caritó, de beata!
E olhe aqui! Só vou fazer as pazes com você, quando me trouxer um marido.
Mas, como escrevi no inicio, o mundo dá muitas voltas porque hoje a história é outra ouviu vovó!
Conheço muitas mulheres que fogem de casamento como o diabo foge da cruz.
Pois não é que o mundo mudou mesmo? Acho que o santinho está vivendo mais em paz!
E as almas? Devem está no seu devido lugar: no descanso, porque naquele tempo de uma coisa tenho certeza, muitas perderam o juízo e ao invés de céu foram pro purgatório de tanta raiva daquelas beatas lhes tirando o sossego devido!
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Falando seriamente, existiam várias razões, muitas vezes dramática para uma moça não casar antigamente e achei muito interessante este artigo escrito por Rachel de Queiroz

O Cruzeiro - 19 de setembro de 1959.



Vitalinas
“E tira o pó, Vitalina,
Bota o pó, Vitalina,
Môça velha não sai mais do caritó”
(cantiga popular)

Da Bahia para o Sul, pouca gente saberá o que é vitalina e o que é caritó. Caritó é a pequena prateleira no alto da parede, ou nicho nas casas de taipa, onde as mulheres escondem fora do alcance das crianças, o carretel de linha, o pente, o pedaçõ de fumo, o cachimbo. Vitalina, conforme a popularizou a cantiga, é a solteirona, a môça-velha que se enfeita - bota pó e tira pó - mas não encontra marido. E assim, a vitalina que ficou no caritó é como quem diz que ficou na prateleira, sem uso, esquecida, guardada intacta.
As cidades grandes já hoje quase desconhecem essa relíquia da civilização cristã, que é a solteirona, a donzela profissional. Porque, se hoje como sempre, continuam a exisitir as mulheres que não casam, elas agora vão para tôda a parte, menos para o caritó. Para as repartições e os escritórios e os balcões de loja, para as bancas de professôra, e até mesmo, Deus que me perdoe, para êsses amôres melancólicos e irregulares com um home que tem outros compromissos, e que não lhes pode dar senão algumas poucas horas, de espaço a espaço, e assim mesmo fugitivas e escondidas.
De qualquer forma, elas já não se sentem nem são consideradas um refugo, uma excrecência, aquelas a quem ninguém quis e que não têm um lugar seu em parte nenhuma.
Pela província, contudo, é diferente. Na próvíncia os preconceitos ainda são poderosos, ainda mantêm presa a mulher que não tem homem de seu (o “homem de uso”, como se chama às vezes ao marido...) e assim, na província a instituição da titia ainda funciona com bastante esplendor. E o curioso é que raramente são as môças feias, as imprestáveis, as geniosas, que ficam no caritó. Às vezes elas são bonitas e prendadas, e até mesmo arranjadas, com alguma renda ou propriedade, e contudo o alusivo marido não apareceu. Talvez porque elas se revelaram menos agressivas, ou mais ineptas, ou menos ajudadas da família na caçada matrimonial?
A gente as conhece mocinhas, botões de flor cheios de esperança e de graça adolescente. Que pele, que dentes, que cabelos, que cintura! Por uns anos se deixa de vê-las, e então quase não se as conhece mais - ressequidas ou obesas, azêdas, beatas. Fazendo crochê ou se especializando em outras coisas igualmente inúteis, ressentidas, solitárias, queixando-se de imaginários achaques, e tão semelhantes ao tipo caricatural da solteirona pintado nos livros e nos palcos, que até parece escolheram o modêlo e o copiam com exemplar fidelidade.
Falta de homem? Bem, é um dos motivos. Na próvíncia os homens emigram muito. E para onde emigram, casam. Depois, também contribuiu para a existência das solteironas a reclusão mourisca que muito pai ainda costuma impor às filhas môças. Cobra que não anda não engole sapo. Aí, por estas províncias além ainda existe muito pai carrança que só deixa a filha sair para ver a Deus ou aos parentes, e assim mesmo muito bem acompanhada. Reclusas, as meninas vão ficando tímidas, e dentro de um pouco, já são elas próprias que se escondem com cerimônia dos estranhos.
Depois, - parece incrível - mas o egoísmo das mães também contribui. Uma filha môça, no interior, não é, como na China, uma praga dos deuses. É, ao contrário, uma auxiliar barata e preciosa, a ama-sêca dos irmãos menores, a professôra, a costureira, o “descanso da mãe”. E então as mães, para não perderem a ajudante insubstituível, se associam aos pais no zelo exagerado, traindo a solidariedade do sexo por outra mais imperiosa, a solidariedade na exploração.
Menina de cidade, passeando de lambreta, morando nos cinemas, mal sabe como é dura a sorte da mocinha de interior. Nas famílias mais pobres, então! De pequenina, sete a oito anos, já recebe um irmão menor para criar, e o uso é que o crie completamente, assumindo tôda a responsabilidade, como se a própria mãe o fôra. Fazer mingau, banhar o menino, balançá-lo para dormir, atendê-lo à noite (inclusive nas doenças), carregá-lo. Às vezes são tão pequeninas que não podem com o irmão nos braços e por isso inventaram o uso de o carregar no quadril, e têm delas que ficam tortas, só do pêso permanente que levam do lado direito durante tôda a infância. Também das meninas é a obrigação de trazer água para casa; e, quando os irmãos crescem, são elas que lhes lavam e engomam a roupa e cozinham a comida. Nas famílias mais pobres elas também vão para o roçado, junto com os homens de casa, limpar de enxada. E o sinal de que uma família tem môça muito mimosa e de bom trato, é dizer-lhe que ela não sabe o que é enxada. Mas apanhar feijão e algodão tôdas apanham, mesmo as de luxo
E, enquanto isso, que faz a mãe? A mãe dá conta da obrigação de Eva, e bota filhos no mundo, regularmente, um por ano. Doze, quinze, dezesseis, vinte. Escangalhadas por tanta maternidade, pelos partos mal assisitidos, aos trinta anos já são umas megeras, sem carnes e sem dentes, e passam a vida acocoradas no batente da porta ou à beira do fogo, fumando cachimbo, enquanto o feto lhe cresce nas entranhas, e as meninas trabalham.
* * *
Aliás, me desviei das vitalinas. Porque essas meninas muito pobres quase sempre acham marido. As titias proliferam com abundância é na classe dos remediados e dos meio-ricos. Não que a môça nestes grupos esteja sujeita a uma escravidão menor. Apenas o trabalho é menos duro nas casdas onde se pode pagar uma empregada, ou onde se tem aquela outra mártir doméstica, - a menina que de garôta se tomou para“criar”. A que chama os patrões de “padrinhos”, pequena escrava para quem a Princesa Isabel nunca exisitiu. A primeira que acorda, a última que dorme, não há serviço, por pior, que não lhe imponham, nem direito, por menor, que lhe reconheçam. Para dormir tem uma rêde armada a um canto, come às pressas na cozinha o resto das panelas, veste a roupa velha das meninas da casa e lá um vestido de chita nova, nas festas. Essas, contudo, embora raramente se casem, (ou fujam e “se percam”), pois as madrinhas desviam qualquer pretendente no susto de perderam a cativa, depois de mulheres feitas quase nunca realizam a figura da vitalina guardada no caritó. De escravas que foram quase sempre se transformam em tiranas, assumem a direção da casa quando a senhora envelhece e as môças indolentes não a disputam. Viram-se na Dindinha, na Mãe-Titó, na Tia-Bá, eminência negra ou parda em cujas mãos capazes fica pràticamente entregue o govêrno da família.
* * *
Não sei o que dirá disso a moral tradicional, mas creio que, felizmente, a existência da vitalina, mesmo na província, já anda perto do fim. A instituição da “môça livre” ou da “mulher de carreira”, segundo os modelos da América e da Europa, já tão bem copiada no Rio e em São Paulo, é uma tentação muito grande. Qual a môça que tendo possibilidade de viver do seu emprêgo, no seu próprio apartamento, onde, se lhe falta o aconchego do marido, restam sempre os consolos da liberdade, qual a môça que escolherá viver de favor em casa do irmão, sob a tirania da cunhada?
Será um mal a substituir outro, dirão. Pois bem nenhum sairá dessa nova liberdade. A isso não respondo, que não sei: o que posso dizer é que será, de qualquer jeito, um mal muito menos melancólico.
O Cruzeiro on line é um trabalho de preservação histórica do site Memória Viva

3 de maio de 2012

Moça Véia Não. Deus me livre e guarde!



É cada uma que acontece neste mundo, que contando ninguém acredita e eu que pensava que já tinha visto de tudo agora eu sei, afirmo e assino embaixo:
Eu não vi foi nada!
Pois nos tempos da Chica existia uma história de moça ter medo de não casar e ser chamada de moça velha que era um negócio sem explicação. Porque se casava mesmo sem gostar do dito cujo só pra não ser chamada de moça velha.
E eu com 10 anos já tinha esta preocupação. Já pensou quando eu crescer e não casar e me chamarem de bruaca, de moça veia, de caritó, de vitalina, o que é que eu vou fazer?
E o que seria da minha vida e do meu destino?
Lavar pinico, cuidar de sobrinho pras mães saírem pras festas, levar recados, vigiar namoro de sobrinha assanhada, lavar igreja, escutar fofoca, falar da vida alheia?
Deus que me livre, pois moça veia eu não fico porque vou ser freira. Pois estes eram os meus planos.
E eu com aquela cara de melancia, doida pra criar espinhas na cara, ficava de ouvidos afinados na casa da chica só pra ouvir as estórias das futuras moças velhas que por mais um pouco estavam virando titias.
E esta história era coisa sério mesmo, bastava uma discutir com a outra, que esta já gritava pros quatro cantos do mundo!
E que xingasse de qualquer coisa, menos desse nome aí:
( M-O-Ç-A V-E-I-A )!
Venha pra cá sua moça velha encalhada! E eu? No meu futuro não queria ouvir uma coisa dessas. E foi que um dia alguém ensinou uma simpatia pra umas que estavam pra chegar nessa estação de moça velha.
A meia noite em ponto, quando o relógio da Igreja batesse as 12 badaladas, chegava-se na porta da Igreja, chamava-se pelas almas e pedia um marido. O pior disso tudo é que tinha que gritar, não era um pedido feito em pé de orelha não. Se fosse era muito bom, assim ninguém ficava sabendo, o pior disso tudo é que o pedido era feito aos berros.
Eram as badaladas do relógio soando de noite afora e os pedidos juntos. E se alma tinha ouvidos, garanto que muitas delas ficaram surdas! Porque os sinos do relógio da Igreja da minha cidadezinha quando batiam as horas, se ouvia a kilometros, tão fortes que eram!
E cidadezinha pequena, já sabe, no dia seguinte a noticia corria solta!
E havia umas mais afoitas que para apressar mesmo o pedido, preferiam ir direto na fonte: ou seja, na porta do cemitério. O que era uma boa ideia, porque o repouso final ficava bem afastado da cidade e lá eu duvido que ninguém ia ficar sabendo.
Não sei se a simpatia funcionava, sei apenas que na Igreja quase todo santo dia tinha casamento.

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2 de maio de 2012

DIRETO DO BAU DA CHICA. DESENTERRANDO DEFUNTO


Calma ai! Porque o defunto aqui é a estória de um homem chamado lobisomem!
E viajando nas asas da imaginação decidi:
É hoje!
É hoje que vou ver um talzinho de blog da chica chata! Se fosse no tempo da chica ela com certeza iria me mandar medir a audiência do blog com uma fita métrica!
E eu que nunca perdi a mania de querer saber de tudo perguntaria:
Mas, como é que mede?
E ela mudaria de assunto, só para não ter que responder uma pergunta que não sabia a resposta.
Como o sapato de nome Luiz XV, que só pude mesmo compreender, quando ganhei do meu pai um dicionário, tantas eram as perguntas que eu fazia.
Mas como esse bloguinhozinho não foi criado para fazer sucesso nenhum e nem tem esta pretensão coitado, de vez em quando viaja.
E hoje resolveu voltar ao baú da chica para retirar alguns guardados.
Aquele baú encantado, que na minha imaginação era cheio de ouro, pedras preciosas até a tampa. Mas, que guardava pura e simplesmente um vestido velho de noiva e roupinhas de recém-nascido já amarelados pelo tempo. Revira e revira e lá está a estória do lobisomem e foi exatamente como eu disse, aliás, escrevi e quem espalhou esta estória foi o guarda.
O Lobisomem
Pois é, ultimamente não estava querendo sair muito de casa, tudo por causa de uns boatos que andavam correndo pela minha cidade.
Diziam que por ali a meia noite, andava um lobisomem! E eu só de pensar já sentia arrepios.
Na escola o assunto era um só. O guarda da noite foi quem falou que bateu de cara com um homem de nome lobisomem. O coitado sequer teve tempo de abrir a boca para perguntar quem era, e o tal lobisomem colocou aquelas mãos horrorosas pra fora e fez o coitado chegar em casa com o coração saindo pela boca!
No outro dia, o assunto era um só! O lobisomem invadiu a minha pequena e pacata cidade, que não devia um centavo pra ninguém e agora se via com um problemão desses!
Todo mundo agora tratava de reforçar as trancas das portas e lá em casa não foi diferente!
Não se via mais um filho de Deus sentado na calçada falando da vida alheia. E prá ser sincera, quem ia querer se ocupar da vida de ninguém com um assunto desses para se preocupar!
Na Igreja, na missa das seis horas, o padre era obrigado a celebrar a missa somente para o sacristão porque os fiés mesmo, que era bom, não tinha nenhum pra rezar um pai-nosso!
Até o sacristão queria que o Padre rezasse a missa de portas fechadas, com medo do lobisomem aparecer e acabar com a Igreja. Mas na missa do domingo, o padre tentava acalmar e explicar a aquela gente, mas ao sair da Igreja o povo dava o dito por não dito e preferia não arriscar!
E foi nesse reboliço todo que de noite ninguém dormia direito vigiando as portas. Na rua, não existia uma alma viva. Somente o vento, para deixar aquela situação de cabelo em pé.
Prá casa da Chica, nem pensar, principalmente porque fiquei sabendo que o lobisomem gostava mesmo era de menina que perguntava muito, e de cabelo curto com um centímetro de franja. Eu de minha vez, pegava o terço da minha mãe e ficava pedindo perdão a Deus dos meus pecados.
E foi numa certa noite de lua cheia que o negocio esquentou de verdade, ouviu-se uma gritaria no meio da noite. Imagino a quantidade de ouvidos afinados para ouvir a voz do lobisomem que estava assustando uma cidade inteira e não dava sinal de vida!
Era a voz da muriçoca, batendo boca com o tal de lobisomem!
Venha prá cá seu estrupício,
Venha aqui encarar a muriçoca,
Tá com um mês que não saio de casa, por sua causa!
Mas hoje a porca torce o rabo e nós vamos decidir quem é que manda aqui de noite!
Essa cantiga durou a noite toda, ninguém dormiu ninguém saiu pra ver.
Só sabemos que o lobisomem não quis enfrentar a muriçoca e pelo visto desapareceu.
A muriçoca amanheceu como sempre dormindo na calçada da Igreja.
E ninguém ouviu mais falar no lobisomem.

Foi nuns tempos lá pra traz Que olhamos para a lua Com olhar de quem morreu Você dizia ó lua linda Eu respondia, ela é somente sua Era...