29 de julho de 2010

MINHA AMIGA, A CHICA



Só de pensar naquele baú, me sentia desanimada para meu passeio de quase todos os dias.
Aproveitei para ficar uns dias em casa em busca de coisas novas, olhar as minhas revistas de modelo, confeccionar as minhas roupas de bonecas. Estava pensando seriamente em montar uma loja de roupas e pra começar fiz a minha exposição na janela da minha casa, pois a feira ficava naquela rua.
Aos sábados, (dia da feira) o transito por ali era grande, esperava meu pai sair para o trabalho e começava meu movimento de vendas de roupas. Vendi tudo, não dava conta das encomendas, mas meu pai descobriu e definitivamente colocou um ponto final naquele comercio em frente a sua casa!
Agora eu precisava urgentemente pensar em outros projetos.
Queria de qualquer maneira que a minha mãe me colocasse numa escola de corte e costura! 
Para ser sincera não tinha vocação nenhuma para ser costureira. Descobri que gostava mesmo de especular e se alguém permitisse iria longe. E a Chica era muito bondosa e paciente. As vezes eu falava que somente a minha mãe e a Chica me entendiam. Na Casa da Chica eu aprendia muitas coisas também. A Chica costurava e bordava os detalhes mais finos e mais lindos que já vi e foi com ela que aprendi a fazer ponto rococó e fuxico. Tudo a Chica sabia fazer, pintar em tecidos, fazer detalhes de crochê e com ela eu ia aprendendo tudo.
De repente ouvi uma voz bem conhecida lá na sala. Era a Chica, que veio fazer uma visita a minha mãe. Vi as duas conversando, tomando café e perguntou por que não apareci e se estava doente. Doente eu não estava. Só não tinha ânimos para encarar aquele baú.
Os tempos passavam e com 12 anos fui pra uma escola de corte e costura e lá não fiquei mais do que três dias. 
Depois eu conto!


26 de julho de 2010

O Baú Misterioso da Chica



Como escrevi na descrição do meu blog, esta não é a história da Chica. Mas vou falar um pouco daquela pessoa maravilhosa.
A Chica era uma mulher muito bonita, alta e morena, de cabelos pretos lisos e curtos. Tinha mais ou menos 1.75m de altura.
Um certo dia, chegando a sua casa como de costume pude ver que a Chica havia saído para fazer compras porque a mesa estava cheia de pacotes e sacolas.
- Chica eu posso pegar café pra você?
- Na verdade a minha intenção era outra, precisava saber o que havia naquelas sacolas
- Chica, você comprou o que?
-Você foi em qual loja?
-Quanto custou este aqui?
E qual foi a minha surpresa quando me deparei com um sapato preto chamado de Luis XV, e levei tempos para entender porque aquele sapato tinha aquele nome, pois ela não soube me explicar. Na minha concepção sapato alto era prá ficar alta e fiquei sem entender porque a Chica daquele tamanho iria usar aquele sapato.
- Chica você não vai cair? 
- Se você cair e quebrar a perna quem vai costurar?
- Prá onde você vai com este sapato?
- Vou ser a madrinha do casamento da Manoela.
- Quem é Manoela?
- Ela é filha de quem?
- Chica, porque seu nome é Chica? 
-Não conheço ninguém com esse nome de Chica!
- Nome mais feio, nunca ouvi falar, pensei! 
A minha tarde naquele dia, estava cheia de novidades!
Uma das coisas que chamava a minha atenção na casa da Chica era um baú que ela tinha na sala. Era um baú de madeira e detalhes de couro com arrebites da cor de prata. Aliás, aquele Baú na minha mente era um mistério, um segredo, uma coisa do outro mundo que eu não conseguia entender porque vivia fechado. Sabia que a Chica tinha um cuidado fora do comum com aquele baú misterioso. Um ciúme que me deixava com a pulga atrás da orelha.
Uma vez por semana, religiosamente, limpava com uma flanela embebida de lustra moveis pra ficar pretinho, pretinho. A vida inteira eu quis saber o que tinha dentro daquele baú as vezes imaginava que a Chica tinha um tesouro escondido. Mas não arriscava em perguntar.
Deve ser um segredo da Chica. 
E qual foi a minha surpresa, quando um dia a Chica resolveu abrir o Baú na minha presença e quase desmaio, o coração a mil por hora, fiquei vermelha e amarela de emoção ou curiosidade, corri pro baú, estiquei o pescoço, arregalei os olhos e tomei um banho de água gelada ao ver que ali não tinha tesouro nenhum, somente um vestido velho branco de renda com um véu enorme enrolado num saco, que tomava o baú inteirinho. 
Um sapato velho dentro de uma caixa que ela chamava de meu sapato Luis XV, e outras coisas de casamento.
Tinha também umas roupinhas de bebê, que na época chamavam de cueiro, com as bordas bordadas de um ponto chamado rôcôcô, e um pedaço de tripa dentro de um frasco que ela dizia ser o umbigo do filho dela.
Fiquei tão decepcionada, de uma tal maneira, que não lembro se chorei. Onde eu colocaria o tesouro que imaginei existir naquele baú? Levei muito tempo para esquecer esta história.
Se não fosse a minha mãe que me prometeu umas palmadas, até hoje eu estaria com isto na cabeça!

25 de julho de 2010

AS FESTAS DA CIDADE E A CHICA



E assim os anos se passavam, na minha cidadezinha do interior, festas é o que não faltava.

Festas de inauguração, de carnaval, festas do dia das mães, de São João, de São Pedro, festa de aniversário da cidade, festa do padroeiro. (Só da Igreja eram umas três por ano) Festa do dia dos pais, festa das debutantes, festas de formatura, festas de natal e ano novo enfim, tudo era motivo para festas.

Cidade pequena todo mundo sabe da vida do outro e quem vai aparecer com a roupa da festa passada? 
Ninguém. Para não fazer feio. Para não ser alvo de comentários. 
- Você viu? Fulana vestiu a mesma roupa da festa de... (Não lembro a ocasião), porque eram festas pra não acabar mais. Cada uma mais importante que a outra! 
O Clube da minha cidadezinha do interior era freqüentado pelas pessoas mais ilustres, e as mulheres exibiam os seus trajes confeccionado com muito esmero e capricho com os tecidos encomendados, vindos do Rio de Janeiro ou São Paulo e colocados nas casas das costureiras com muito segredo para ninguém ver, nem a cor, nem o modelo daquela obra prima! 
Eu não participava é claro! Com meus, agora 08 ou 10 anos, prá onde iria? A não ser as festas do Padroeiro que duravam uma semana.Ficava sabendo das noticias na casa da Chica, com meu olhar e agora ouvidos de RAIOS-X. 
Festa lembra roupa nova. 
E roupa nova lembra de quem? Da Chica é claro. Era preciso reservar vaga, senão nem sei contar o que seria! 
Olhava para a minha heroína se descabelando, dia e noite, as clientes apressadas, vendo à hora chegar o dia da festa e o traje não está pronto! 
- QUEM MANDOU SER COSTUREIRA? EU DIZIA. 
- E as roupas lá de casa, você vai fazer quando? Agora eu era exigente e chata também e a Chica nesses dias de festas, ficava mais chata ainda! Agora a minha observação tomava outro rumo, como via a Chica com a fita métrica medindo ombros, pinces, cós e etc., comecei a fiscalizar também. 
- Chica, minha mãe falou que quando eu crescer vou ser costureira! 
- Chica eu vou ser costureira? 
- Vai ser costureira e uma costureira chata! Voltava prá casa, pois se não chegasse antes das cinco horas, vinha um portador me buscar. 
Em casa falava prá minha mãe: 
- A chica falou que vou ser uma costureira chata!

23 de julho de 2010

A MÁQUINA E OS RETALHOS DA CHICA


As vezes, a minha mãe proibia tantas visitas à casa da Chica, mas entendia, porque nos fundos da casa eu tinha o meu ateliê de roupas de bonecas confeccionado a mão com os retalhos dos tecidos presenteados pela Chica.
Adorava brincar de costureira, de criar modelos de roupas!
Mas a minha paixão de verdade era especular a casa e a vida da Chica. Dia e noite. Pois lá o meu campo de pesquisa era farto e a Chica era meticulosa, tinha mania de perfeição e eu daqui a pouco iria me tornar uma chata também. Chata no bom sentido é claro.
Se existia uma coisa que a Chica não permitia, era mexer na sua máquina, sequer sentar na sua cadeira. Área totalmente restrita à sua pessoa.
- Esta máquina nunca foi pro conserto, porque zelo e cuido como se fosse minha filha, isto eu sabia de cor, até que ajudava a zelar também. 
Os acidentes acontecem, um deles foi quando, sem querer é claro, derramei uma xícara de café em um vestido, e vi a coitada da Chica, desesperada com as mãos na cabeça, sem saber que rumo tomar na vida. Mas, o meu rumo eu sabia muito bem, em dois minutos eu estava em casa; pálida e desconfiada. Fiquei uma semana sem aparecer na casa da Chica. E só apareci porque ela mandou um recado para minha mãe me levar para provar meus vestidos. Não perguntei sobre o passado, mas ela rindo falou que eu não tive culpa e como era muito querida, se entendeu com a sua cliente. Fizemos as pazes e morta de saudades fiquei por ali mesmo a tarde inteira porque tinha muitas coisas para perguntar, muitas mesmo, tantas que não sabia por onde começar! 
Estava feliz e com a consciência em paz, ainda ganhei uma sacola de retalhos que ela havia guardado pra mim. Um presente caído dos céus, ferramentas para uma semana inteira. 
- Chica, como se chama o nome deste tecido?
- E este?
- E este aqui?
- Foi um vestido, uma saia ou uma blusa?
- Você já entregou?
Vasculhava o meu material de pesquisa a procura do mais bonito, e quando encontrava o interrogatório se estendia, pois daí eu queria saber de tudo! Dava uma olhada na fisionomia da Chica, imaginando se podia continuar ou não, e para quebrar o clima eu falava:
Chica, você quer café?
Tudo e qualquer coisa para a Chica não sair da máquina, mas a Chica respondia.
Não, pode deixar, preciso ir a cozinha.
Como eu sabia que ela demoraria, fui pra casa com a minha sacola.
Em casa mostraria para a minha mãe todos aqueles retalhos, um por um.
Ali eu sabia o nome de cada um, pra que foi utilizado, e de quem era!
Os dias se passavam quem me visse naquele vai e vem diria que no futuro eu seria uma grande costureira. 
Será mesmo?

22 de julho de 2010

A CASA DA CHICA



Queria me ver irritada, era chegar à casa da Chica e ver a casa cheia de gente!
Lógico, suas clientes estavam ali para tirar medidas, retirar encomendas e pagar, e aproveitavam para fofocar do marido da amiga, do namorado da visinha, do vestido de fulana que não caiu bem, da outra reclamando porque a Chica fez uns dez modelos todos iguais, que ao sair na rua viu fulana e beltrana com um vestido iguazinho ao dela, da dor de dente, do sapato apertado, nem o padre escapava nesta hora e eu ali de olho!
Com meu olhar de RAIOS-X comparava os modelos que elas escolhiam e que nada tinha a ver com o perfil delas. Como ali não tinha lugar prá mim, voltava pra casa. 
A minha mãe falava:

O que houve que está com esta cara? Eu simplesmente respondia.

Eta Chica Chata! Só vive falando dos outros!

A casa da Chica está parecendo a feira!

Acho que a Chica nem costurou hoje.

CHICA CHATA AQUELA!

21 de julho de 2010

A MINHA VIDA E A CHICA

E assim era a minha rotina, perturbar a vida da Chica. Todos os dias a mesma coisa. Motivos para ir à casa da Chica eu tinha de sobra, minha mãe sendo uma cliente de primeira, sempre tinha de 10 a 20 cortes de tecidos na fila, esperando a vez para se transformar em modelos da moda nas mãos da Chica.

Era chegar da escola, almoçar, fazer a lição de casa e pé na estrada para ir à casa da Chica, que ficava a dois quarteirões da casa da minha mãe.

Chegava, como quem não quer nada, dava uma olhada naquela mesa enorme procurando os tecidos da minha mãe, esperava a Chica sentar para costurar, colocava uma cadeira bem em frente a maquina de costura e meus olhos navegavam vendo aquela minha heroína, pedalando a máquina e os tecidos se transformando em lindos vestidos, iguaizinhos aos das revistas.

- Chica! Posso pegar um café prá você?

Era minha maneira de preparar o campo para o meu interrogatório:

Muitas vezes ela estava de mau humor, daí eu dava meia volta e voltava prá casa.

Mas quando o campo estava favorável a ladainha começava:

- Chica, você está fazendo o quê?

- O vestido da filha de...(não sei quem, não lembro)

- Como é o nome dela?

- Quantos anos ela tem?

- Você já fez vestido prá ela?

- Ela é gorda ou magra?

- Ela tem irmâ?

- Você também já costurou prá irmã dela?

A Chica se levantava para ir até a cozinha tomar um café e fumar o seu cigarro, e eu na minha inocência, não entendia que ela estava na verdade pedindo SOCORRO! Devia estar sufocada, só que eu não entendia nada!

- Chica! Você ainda vai costurar hoje?

- Que dia você vai fazer a roupa da minha mãe?

Muitas vezes, ela pegava a bolsa e falava que precisava sair prá comprar não sei o que...

Eu simplesmente pegava os retalhos que estavam sobrando por ali e voltava pra casa feliz da vida...

20 de julho de 2010

QUEM É CHICA



Chica era nada mais nada menos que a costureira da minha mãe! Digo era, porque todos nós temos o nosso tempo aqui na terra. E que Deus a ilumine onde estiver!

Chica era a pessoa mais eficiente que tive a oportunidade de conhecer! Era a costureira não só da minha mãe, mas de quase uma cidade inteira e eu desde que me conheci por gente era a sua fã Nº 1.

Dava gosto de ver, ela naquela máquina de costura, máquina simples sem recurso nenhum criando aqueles vestidos, saias, blusas com uma perfeição tamanha, que somente quem nasce com este dom sabe do que estou falando.

Pois Chica nunca foi a uma escola de corte e costura. Mas com a fita métrica, a tesoura e linha, o tecido em suas mãos se transformavam em obra de arte.

Eu, tinha mais ou menos sete anos quando resolvi adotar a Chica como minha heroína!

Bom essa era a Chica, a dona da paciência e eu era a Chata pelo menos é o que diziam, que eu era uma pedra no sapato, ou purgante. 

Defensora da Chica, secretária da Chica, anjo da guarda da Chica e aí de quem não pagasse pra Chica e ai de quem enchesse muito o seu saco por causa de roupas pois eu que não tinha nem um metro valia por Chica que tinha dois. Mesmo com todos esses predicados, na minha concepção de analista de meia tigela, a Chica era nada mais nada menos que “Uma Chica Chata”

Categorias: Entretenimento, Humor, Literatura Infanto Juvenil

E o livro da Chica Chata está lá no Clube de Autores:
ISBN: 978-85-65826-28-0 ...

Foi nuns tempos lá pra traz Que olhamos para a lua Com olhar de quem morreu Você dizia ó lua linda Eu respondia, ela é somente sua Era...