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26 de julho de 2014

A GALINHA CHICOTA

Imagem: realquintacaipira.blogspot.com
De tanto azucrinar o ouvido da Chica ganhei um apelido de Chiquinha.
Achei horrível!
Odiei!
Mas quem gostava mesmo de me chamar de Chiquinha eram as freguesas da Chica, porque não gostavam muito da minha presença cujo oficio era dar palpites e xeretar os cochichos.
Ninguém se atrevia a falar mal da vida alheia na minha presença, para não correr o risco do segredo ser descoberto.
Sem dúvida nenhuma eu era o anjo da guarda da Chica e vice-versa. Se alguém olhasse sequer com o olho atravessado pra mim, já sabe, a Chica demorava em fazer o vestido. Que coisa hem?
Pois foi neste chaleramento todo que um certo dia ganhei uma bela de uma galinha da comadre da Chica.
Adorei porque eu achava galinha a coisa mais linda do mundo, sem falar que ainda acho.
E se possível fosse criaria uma bem aqui no meu apartamento.
Mas, voltemos a galinha que ganhei de presente e cujo nome coloquei de chicota.
A chicota era amarelinha com pintinhas de toda cor e uma crista rosadinha que eu chamava de cabelo. Era um hem hem hem com essa galinha que só mesmo vendo para crer.
A chicota me adotou ou como mãe dela ou como irmã porque não saia do meu colo.
E os retalhos que eu ganhava da Chica eram pra fazer toquinha, saia, casaco e até meias para a galinha eu fazia com furos para sair os dedos.
As unha eram pintadas e no cabelo, digo na crista, eu passava óleo de bebê que peguei um pouco emprestado da minha mãe que estava lá de bebê em casa.
E era um xodó com essa galinha, que Deus me livre. A chicota quando me via parecia mesmo um cachorro quando vê o dono, não saia do meu pé. E eu morta de feliz falava:
- Venha pro colo da titia, ela vinha e ficava sentadinha, quietinha que dava gosto se ver eu com aquela galinha no colo.
As vezes pensava em levar pra casa, mas como a minha mãe era chegada a uma galinha ao molho pardo, Deus me livre de uma coisa dessas acontecer com a minha chicota. Acho que eu poderia até adoecer de tanto desgosto!
E assim os meses foram passando quando um certo dia cheguei à casa da Chica e a chicota estava num alvoroço tão grande, correndo pra lá e pra cá e gritando quá quá quá quá e tome mais quá quá quá quá correndo pelo meio do terreiro da casa da Chica que mais parecia uma galinha doida e não a minha chicota!
Mas a Chica me explicou, ela estava cantando de alegria porque botou um ovo!
A chicota estava meio que esquisita, estava muito orgulhosa e metida a besta só porque estava botando ovos.
Em um quarto nos fundos do quintal, a Chica preparou um ninho com palha de milho para a chicota botar os seus ovos e todos os dias religiosamente era aquele qua qua qua e podia conferir que lá estaria mais um ovo.
Passaram-se mais uns dias quando chego à casa da Chica e cadê a chicota?
A Chica me falou: esta de molho.
Quase enfartei. Será que a Chica teria tido a coragem de matar a coitadinha da minha galinha?
E vendo o meu desespero explicou que a chicota estava chocando os ovos e que não queria ver ninguém! E que não adiantava eu chegar nem perto porque ela estava muito ocupada cuidando da sua maternidade.
E era verdade, a chicota estava uma arara, e não deu a mínima pra mim, ficou zangada quando tentei chegar perto.
Vi pelo seu olho amarelo e arregalado que não estava mesmo querendo saber da titia.
Saí para não assusta-la, mas cá aqui com meu botões já estava preparando os nome para os filhotes da chicota que agora passaria a ser dona chicota.
Dito e feito, mais alguns dias e lá está a dona chicota com 10 pintinhos.
Era ela na frente toda orgulhosa e a filharada atrás. Onde será que eu conseguiria tantos nomes pra tantos filhos?
Sentei num banquinho e fiquei a admirar a minha galinha, tão linda com seus pintinhos e bem perto dali também existia um galo, de certo deveria ser o pai e o mais engraçado é que quando o chicão, digo o galo, olhava pra mim com olhar meio que suspeito não se atrevia a beliscar os pintinhos porque se por um acaso fizesse eu lhe arrancaria as penas uma por uma e olho no olho o tal do chicão pressentia o perigo, que no caso aqui era eu.
E com um caderno na mão procurava os nome dos filhotes de chicota que com aquele piu piu piu não desgrudava da mãe.
Ninguém neste mundo era mais feliz que eu.
Minha galinha chicota era mãe de família era cada vez mais linda e paparicada por todos que ali andavam, a Chica adorava a chicota e por este motivo sabia que jamais a minha chicota viraria ensopado e nem assado. Viveu até o dia que Deus permitiu.

25 de julho de 2014

25 de maio de 2014

Vidinha na Escola



A importância do Bê a Bá

E voltando ao meu passado repleto do que é o que é, para homenagear em forma de agradecimento ás pessoas que passaram pela minha vida.
E já que acredito na vida após a morte do corpo não vou querer reencontra-las sem sequer haver passado pela vida e sem tocar nos seus nomes.
E uma dessas pessoas é a Dona Mariquinha a minha primeira professora, aquela que me ensinou o ABC e ainda hoje lembro da minha cartilha de ABC e minha tabuada.
A Dona Mariquinha tinha uma escola particular, era amiga da minha mãe e até hoje lembro da sua fisionomia.
Minha segunda professora foi a Dona Geralda. Tinha uma escola pertinho da Igreja, um quarteirão da minha casa.
Tinha também a madrinha Néia, minha madrinha que adorava me presentear com lindas bonecas. Fazia uns bolos que era uma delícia e quase todo dia trazia bolo pra mim.
Tinha também a Dona Inacinha, que cuidava da minha mãe quando ela tinha bebê, fazia um ensopado de galinha que minha mãe odiava porque só tinha gosto de agua e eu adorava aquele panelão cheio d’água até a tampa.
Tinha também a Finha que passava as roupas lá de casa, ainda não vi alguém passar uma roupa daquela maneira com um ferro cheio de carvão com brasas e sua irmã Terezinha que não saia lá de casa, era a melhor amiga da minha mãe.
Enfim não tem como falar de todo mundo, senão não termino nunca!
Quando cheguei na idade de entrar nas escolas, fui para o Grupo Escolar José Matias Sampaio.
E por incrível que possa parecer foi nessa escola acho que já no segundo ano, um dia chega na cidade uma família, e um desses personagens que não são fictícios vai estudar na mesma escola e na mesma classe que eu.
Pois não é que esse dito cujo, depois que cresceu virou o meu marido? 
Essa escola, era uma escola linda, com suas salas grandes e o quadro negro enorme na parede, janelas grandes e largas, pena que não tenho uma foto para mostrar. 
Terminando o quarto ano que na época era o quarto ano primário fui para outra escola.
O Colégio Padre Viana. 
Cujo Proprietário e Diretor era o Sr. José Teles de Carvalho. Era uma pessoa muito querida e todos nós o amávamos e respeitávamos muito.
Nesse Colégio vivi a minha adolescência, tempos que não esquecerei jamais. Lembro do nosso uniforme que era uma coisa muito linda.
A saia vermelha grená, blusa branca, a boina vermelha grená, meias brancas e sapatos pretos.
Tínhamos o uniforme para as aulas e o uniforme também da mesma cor para os dias de festividades quando usávamos a boina. 
Como eu tinha orgulho e zelo por aquele uniforme e quando a Finha passava a saia com pregas dava vontade de nunca sentar só para não amassar.
Nas horas de recreio, em épocas da cana de açúcar, corríamos para um lugar que hoje é patrimônio cultural.
A Nascença.
Visitávamos também o Cruzeiro e a Pedra do Urubu

Aí já é outra postagem!

21 de maio de 2014

FESTA DOS CABOCLINHOS


Festa dos Caboclinhos

Era um tiquinho de gente, mas de uma vivacidade que acredito ser fora da época. 
Eu mesma cuidava do meu viver feliz. 
E se nas minhas lembranças existe uma pessoa que não posso esquecer é de Maria Alacoque. 
Foi minha professora que me ensinou a rezar o Pai Nosso e a Ave Maria. 
Acredito que todas as crianças daquela pequena cidade foram suas alunas de catecismo.
Lembro bem de uma música que ela nos ensinava. E gravei para sempre na minha memória.

"Mãezinha do céu
Eu não sei rezar
Só quero repetir
Quero de te amar
Azul é teu manto
Branco é teu véu
Eu quero ser tua
Ó mãezinha do céu!

Éramos de 20 a 30 meninas, cantando esse hino em coro que ao lembrar me faz chorar de saudade!
Saudade de coisas boas, de tempos bons, da nossa inocência, quando não conhecíamos o que era a maldade humana que vemos pelas ruas ou pelo mundo afora.
E Maria Alacoque, figura muito conhecida na cidade, era a organizadora das festas de fim de ano. Preparava o presépio que era verdadeira obra de arte. 
Acredito que além de professora era mestre na arte de decoração porque o seu presépio era comentado e visitado por muita gente que admirava aquela beleza.
Nos preparava para uma festa, onde eu não entendia nada, e só depois que cresci a curiosidade me fez retornar à aqueles tempos inesquecíveis e constatar que os costumes ali eram parte de uma cultura de povos e tempos que estão registrados nas memórias daqueles que preservam as lembranças.
As famílias preparavam os presépios em suas residências e a noite o cortejo de Maria Alacoque saia de cidade a fora composto pelos seguintes personagens.
Os índios, os caboclinhos, as ciganas, as pastorinhas, os beija flores, as borboletas, o pastor, os anjos, a estrela, o sol e a lua e os três reis magos com os presentes.
Eram as alunas (os) e ex alunas (os) do catecismo que faziam parte desse espetáculo, que atraia a cidade inteira. Saiamos cantando e dançando pelas ruas a fora e o cortejo de pessoas para visitar o presépio da residência que nos esperava.
Eu era um dos caboclinhos, vestida de short vermelho com elástico nas pernas e uma faixa também vermelha amarrada no busto, o rosto  e braços pintados e uma faixa na testa com penas coloridas que ela preparava. E cantávamos bem assim: acompanhando a Maria Alacoque, em uma só voz o nosso bem ensaiado canto:

Vão chegando os caboclinhos,
Na cidade de Belém,
Tão lindos e pequeninos,
Quanta beleza que tem!

Quem são vocês?
Caboclinho da aldeia
Para onde vão?
Vamos a Belém
Vão ver a quem?
Jesus nosso bem
Vão ver a quem?
Jesus nosso bem!

E ao chegarmos na residência onde estava o presépio a festa começava. Com o canto e a dança dos caboclinhos!
A dança das ciganas, com seus chocalhos nas mãos
A dança das pastoras,
A cantiga da estrela, que dizia "que era uma estrela brilhante que Jesus veio anunciar" 
A cantiga do sol e da lua que iluminavam a terra.
Um verdadeiro teatro ao ar livre que atraiam pessoas de todos os lugares.
E era lindo demais!
Como não sentir saudade de tudo isso?
E no dia 06 de janeiro dia de reis, fazíamos uma grande roda na calçada da Igreja em volta da fogueira feita com as palhas de coqueiro que ornamentavam os presépios.
Cantávamos assim:

Essas palhinhas 
Que estão se queimando
É da nossa lapinha
Que está se acabando

Adeus meu menino
Adeus meu amor
Até o próximo ano
Se vivo ainda for.

E a minha homenagem nessa postagem é a Maria Alacoque, que tanto nos ensinou e alegrou.
E onde estiver, deve está espalhando a sua alegria sadia. Essa que faz a gente lembrar e não esquecer nunca mais.
Maria Alacoque faz parte da história de uma comunidade, que trouxe a cultura de povos espalhados pelos cantos da terra, e somente através dela é que conheci esse espetáculo e muito me orgulho por tê-la conhecido.

Maria de Lourdes


19 de maio de 2014

CHICA E A CHATA


História da Chica e da Chata.

Como descrevi no inicio do blog, Chica era a costureira da minha mãe, verdadeira artista na arte da costura e Chata era eu que não saia do seu pé.
Na verdade peguei a Chica e a casa da Chica pra cristo, como diz o dito popular. Não tinha muito o que fazer alem de estudar e encher os patuás da minha heroína que era a Chica.
Se existia uma dúvida povoando a minha cabeça de minhoca, a Chica era o meu dicionário sentada em uma cadeira dia e noite costurando naquela máquina movida a pedal.
Aquilo pra mim era lindo demais, Chica quase da altura de uma porta e aquele pé comandando aquela máquina de onde saia os vestidos mais lindos do mundo. Aprendi a usar a fita métrica com a Chica e xereta do jeito que era tinha a mania de medir os ombros dos vestidos para ver se estavam iguais, e estavam mesmo certinhos. Era xereta até demais, mas no bom sentido, não era xeretamento de especular a vida dos outros, coisa que sempre detestei até hoje.
Mas no sentido de buscar respostas, estudando, pesquisando e perguntando.
Bom essa era a Chica, a dona da paciência e eu era a Chata pelo menos é o que diziam, que eu era uma pedra no sapato, ou purgante.
Defensora da Chica, e aí de quem não pagasse pra Chica e ai de quem enchesse muito o seu saco por causa de roupas pois eu que não tinha nem um metro valia por Chica que tinha dois.

Tempos bons aqueles, por mais que tenha vivido e experimentado o lado bom da vida jamais vou esquecer daqueles tempos da Chica.

Uma felicidade verdadeira. Acredito que na nossa memoria ficam armazenados para sempre as situações que vivemos quando criança. Não conheci o que era tristeza a não ser no dia que tive sarampo e catapora. Fora isso era só alegria o meu viver. Tinha um pai maravilhoso, uma mãe que era uma santa, uma Chica para encher o saco, e sete irmãos para eu mandar em todos eles se tivesse oportunidade.
Tinha uma porção de brinquedos, uma boneca de nome calunga e uns 10 bonequinhos que eram seus filhos.
Tinha a casa com os moveis azuis que eu brincava de vez em quando, não era muito chegada a brincar de casinha não, meu negocio era especular por que, onde foi e quando, e se me vissem concentrada brincando de bonecas era porque havia aprontado alguma e esperava somente o desfecho com a cara mais lambida do mundo.
Tinha a mania de escutar história e quando chegava uma visita eu já sabia de cor e salteado a velha e costumeira ordem: Já pra sala estudar, tá querendo escutar o quê? E na casa da Chica, tribuna daquelas alvoroçadas discutindo moda era meu palco predileto, lá eu sabia de tudo, isso quando não diziam olhando pra mim:
Cuidado! olha quem tá aí!

Maria de Lourdes

13 de dezembro de 2013

PISTOLEIRA NÃO. DEUS ME LIVRE E GUARDE.


E foi assim que foi! Fui pra casa da Chica e não saí de lá enquanto não falei com a vendedora de perfumes que sempre me dava os catálogos pra eu levar pra minha mãe. Pedi pra ela pra eu vender também e ela respondeu:
 - Deus me livre! Se tua mãe souber! Essa menina parece que não tem juízo certo e lá vai de novo a velha cantiga do juízo. 
Porque será que gostam tanto de mexer com o juízo da gente! Até hoje não descobri.
Mas a Chica deu a maior força dizendo que eu é quem cuidava do caderno dela e recebia todos os fiados.
- E você vai vender pra quem? Respondi: pra umas mulher sem juízo!
Na minha cidadezinha do interior, lá onde judas perdeu as botas. 
Bom eu disse perdeu, porque depois terminou achando e hoje é uma cidade linda e maravilhosa. 
Os costumes eram diferentes e até hoje em certos aspectos ainda são, menos o que vou narrar agora.

Pois bem, existiam umas mulheres que não eram bem vistas pela sociedade e elas eram bem conhecidas pelos seus vestidos que eram todos de um modelo só. 
Se vissem uma mulher com aquele modelo de roupa já sabiam eram essas descriminadas pela sociedade. Lembro bem, que até na Igreja na hora da missa elas sentavam no ultimo banco. 
Mas eu não tinha essa descriminação, pra mim tudo isso era bobagem de gente que quer ser melhor que os outros e elas de vez em quando vinham na oficina do meu pai comprar portas, madeira etc. 
Aproveitei o embalo para vender perfumes pra uma que levou o catálogo lá pra casa delas e no dia seguinte trouxe uma lista de pedidos que eram duas folhas de caderno. 
Na verdade eu era um tico de gente cheia de ideias. 
E minha mãe dizia que elas tomavam os maridos das outras. Não me interessei muito pelo assunto da minha mãe mesmo porque eu tinha lá os meus dez anos e não tinha marido. 
E na minha concepção a minha mãe também não corria esse risco porque ao meu ver meu pai com mais ou menos 35 anos já estava velho. 
Portanto como as moças gostavam muito de andar enfeitadas, seriam ótimas compradoras para os perfumes que eu pretendia vender. E vendi mesmo, muito perfume e maquiagem.

Se não fosse o trá lá lá da minha mãe e a promessa do meu pai de me colocar em um colégio interno teria ficado rica. Acho!
Mas minha mãe toda cheia de lenga lenga, não gostou muito desse negócio e novamente estou eu de pés e mãos atados querendo trabalhar de qualquer jeito. 
Por fim a minha mãe declarou de uma vez por todas que se eu gostava tanto de trabalhar iria arrumar um serviço pra mim já que eu era tão esperta.
Todos os dias depois do café eu pegaria a vassoura iria varrer a casa todinha, depois arrumaria as camas, depois tirava o pó dos móveis, depois colocava água nas plantas. 
No início jogava o lixo embaixo das camas, mas a minha mãe era muito esperta e eu talvez fosse a cópia dela. 
Comecei a prestar atenção na minha mãe e deduzi que ela era também chegada no dinheiro então eu precisava inventar alguma coisa que envolvesse minha mãe trazendo ela para o meu lado.
E analisa daqui e analisa dacolá foi que tive uma ideia daquelas. 
O meu pai tinha um deposito onde colocava pedaços de madeira e comecei a observar que todo mundo entrava ali para pegar aquele material de graça.

Então falei com a minha mãe pra nós duas tomar conta do depósito e ao invés de dar aquele material podíamos vender. 
De cara minha mãe disse não. Mas agora eu tinha uma tarefa pra ocupar meu juízo, convencer a minha mãe a tomar conta do depósito do meu pai.

26 de novembro de 2013

VESTIDINHOS? CANSEI

E pra começo de história aquele comercio de vendas de vestidos de bonecas dentro da casa da minha mãe foi que não deu certo mesmo. 
Aquele entra e saí de meninas quase que deixa minha mãe louca sujando o seu chão que mais parecia um espelho.
De cara a minha mãe finalizou aquele furdunço dentro da despensa da sua casa. 
Ela com razão já tinha oito filhos pra criar e não estava disposta a ceder aos meus caprichos de lojinha de vestidos de bonecas bem na porta de sua cozinha. Que eu fosse inventar outra coisa, porque essa daí com a minha mãe era impossível.
Então tive outra ideia: como a feira era na rua que morávamos resolvi colocar os vestidinhos na janela da minha casa em dias de feira.
Minhas coleguinhas de escola eram barulhentas e briguentas demais por causa daqueles vestidos e aquele aglomerado de blá blá blá na porta da casa da minha mãe chamava atenção de todo mundo que passava. Que povo mais curioso aquele! 
E não deu outra. Meu pai quando viu aquilo na porta da sua casa veio fumaçando pra saber que arrumação era aquela que eu tinha inventado dessa vez. 
Jamais eu poderia imaginar que aqueles vestidinhos de bonecas fossem me trazer tantos problemas: não estudava mais, não fazia a lição de casa, dormia e acordava pensando em modelos de vestidos.
Meu pai chegou, perguntou o que estava acontecendo ali na porta da sua casa e ninguém soube responder.
Mandou que eu retirasse aquela mercadoria de cima da janela, fechou a janela e acabou o fuzuê.
Que eu poderia continuar fazendo os tais vestidinhos, que eu podia dar de presente mas vender não, porque lá em casa ninguém estava precisando disso. 
Foi uma ladainha do tamanho do mundo na minha cabeça que até me fez esquecer o assunto porque vestidinho de graça eu não faria nem morta.
Haveria de encontrar uma forma de ganhar meu dinheiro, pois que me aguardassem que imaginação era o que não me faltava.

Sem muito chororô, terminávamos obedecendo, depois tudo ficava numa boa. Por fim não estava mais querendo saber de fazer vestidinhos a minha imaginação que era a mil por hora já estava focada em outro assunto e na casa da Chica tinha uma senhora que vendia perfumes através de catálogos então eu me candidataria a vendedora de perfumes e até já sabia pra quem iria vender é mole?

19 de novembro de 2013

MEUS VESTIDINHOS DE BONECA


Ganhei muito dinheiro no jogo do bicho, comprei presente pra todo mundo, mas não tinha como voltar a jogar mesmo porque surgiu uns boatos que mandaram fechar o jogo, não sei se foi a polícia ou o prefeito, sei apenas que meu pai fez questão de dar a notícia em primeira mão:
Tá vendo só? 
Se continuasse com esta história de jogar e adivinhar jogo? 
Simplesmente arregalei os olhos e não quis saber desse negócio de jogo até hoje. 
E já que eu tinha dinheiro, agora meu tempo era pouco. Minha mãe tinha uma coleção de revistas de modelos de roupas. Comprava pra Chica fazer os vestidos conforme os modelos e eu tinha um saco grande cheinho dos mais lindos retalhos de tecido que a Chica dava pra mim.
Comecei com o meu negócio na despensa da casa da minha mãe. Caixas e mais caixas com retalhos de toda cor, tesoura, agulha e linha e costurava na mão mesmo os mais lindos vestidos todos da moda. Foi um sucesso. Colocava em uma sacola e levava pra escola, vendia tudo. E não vendia fiado de jeito nenhum. Mas meu negócio na escola não durou muito não porque minhas colegas faziam tanto barulho que a professora proibiu aquele comercio na sala de aula. Ninguém estudava com os vestidinhos passando de mão em mão e depois as mães das minhas colegas estavam uma arara com os dinheiros sumindo das suas carteiras.
E esta história veio parar nos ouvidos de quem?
Adivinhem se puder
Da minha mãe e do meu pai, só podia ser.
Revoltada! Fiquei dois dias sem ir pra escola, não tinha noção das consequências das coisas quando disse pra minha mãe só de raiva que a professora tinha me expulsado da escola que não era pra eu aparecer lá nunca mais.
Nem terminei de dar o recado e minha mãe me pegou pelo braço rumo a escola pra tirar esta conversa a limpo.
Eu não estava querendo ir junto. Mas não tinha jeito! E lá a minha mãe ficou sabendo de tudo inclusive do meu comércio ilegal, de vendas na sala de aula.

E já que a minha mãe tinha me levado com material e tudo tive que ficar por lá mesmo com a cara de Amélia, morta de vergonha, mas me animei quando a professora falou que eu podia vender meus lindos vestidinhos na minha casa mesmo, e imediatamente a imaginação busca novas estratégias.

10 de novembro de 2013

MACUMBEIRA NÃO. DEUS ME LIVRE E GUARDE!

E nessa de jogadora de jogo do bicho tenho histórias pra contar porque mais ganhava do que perdia, jogava todo dia escondido do meu pai que odiava jogo.
O jogo era assim, era uma roleta com todos os bichos de 1 a 25 e os vendedores eram espalhados pela cidade e justamente no armazém do Sr. Vicente em frente à minha casa existia um vendedor que se chamava cambista.
E eu inocentemente virei mascote do jogo do bicho porque todo mundo queria saber de mim que bicho que ia dar.
Pois não é que as pessoas iam até a minha casa pra me perguntar que bicho vai dar hoje? Tem algum palpite?
Mas esta história não durou muito tempo não, porque meu pai tinha o controle de tudo. E foi num desses dias que chegou uma comadre na oficina do meu pai para dizer que eu era uma menina de ouro porque através de mim ela já tinha ganho umas 10 vezes no jogo do bicho e que eu quando crescesse ia ser uma macumbeira e das boas!
E ao ouvir tal afronta meu pai deu um pulo da altura da casa, e disse:
O que?
Que história é essa?
Filha minha não nasceu pra ser jogadora e nem macumbeira!
E depois de ouvir todo o relato do correio da má noticia, saiu fumaçando pra casa, que era bem do lado, pra saber da minha mãe os fundamentos desta história.
Só sei dizer que os cambistas não faziam mais jogo pra mim e diziam bem assim: seu pai proibiu vender jogo para você e depois perguntavam:
Você está com algum palpite? E eu respondia: tô sim, mas não digo e qualquer pessoa que me perguntasse era assim que eu respondia: vá lá perguntar pra meu pai.
E só de raiva acrescentava: sei qual é o bicho que vai dar hoje, amanhã e depois, mas não digo!
Claro que era invenção minha, pois eu não sabia de nada, acertava as vezes por coincidência, depois acabou o jogo.
Comprei muita coisa, linhas, enfeites, botão, rendas, para montar meu bazar de roupas de bonecas. E tem muito mais! Ah se tem!

Maria de Lourdes

9 de novembro de 2013

E DEU COBRA NA CABEÇA

Imagem da Internet
Se tinha uma pessoinha que precisava de dinheiro pra fazer as minhas compras essa pessoa era eu. E embora sendo criança já tinha noção do certo e do errado e jamais iria mexer no dinheiro da minha mãe que ficava tão bem guardado no guarda roupa. Eu precisava ter o meu próprio dinheiro e não sabia como.
Existia na minha cidade o jogo do bicho e todo mundo que eu conhecia jogava e eu entrei no embalo. Existia também um livro dos sonhos lá em casa, acho que em toda casa tinha esse livro e as pessoas usavam para interpretar os sonhos e fazer as suas apostas.
Um certo dia, tive um palpite. Vai dar cobra. E nisto fiquei o dia inteiro e sem ninguém me dar atenção.
Meu pai não gostava de jogo e nem a minha mãe. Mas eu era fã do jogo do bicho. Pedi dinheiro pra meu pai pra jogar na cobra, mas meu pai disse que filha dele não jogava, que não estava criando filho pra ser jogador de jogo do bicho e que eu me aquietasse com esta invenção.
O meu pai tinha uma coleção de revistas, que ele guardava muito bem guardadas no guarda roupa. Sei que eram revistas importantes das quais era assinante e todo mês as recebia pelo correio.
Fui lá no guarda roupa peguei umas cinco e fui vender no armazém do Sr. Vicente, que ficava em frente à minha casa e eu sabia que comprava jornais e revistas para empacotar as suas mercadorias.
Peguei o dinheiro e joguei na cobra e a tarde foi cobra na cabeça. Por pouco não desmaiei. E agora como faria para receber o dinheiro? Me vali da minha mãe que me deu uma boas broncas por causa das revistas, mas já que o dinheiro era pra receber foi comigo e o comprovante da aposta e recebi aquele montão de dinheiro que para mim era uma fortuna.
No dia seguinte joguei na cobra de novo e ganhei. Lembro que meu negócio era jogar no jogo do bicho e ganhar. Até que um dia o jogo foi proibido e acabou a farra.
Então eu precisava colocar a minha mente pra funcionar e consegui:
Depois eu conto
E quanto às revistas, meu pai nunca percebeu. E só ficou sabendo depois que cresci e contei pra ele.


23 de outubro de 2013

MEU EMPREGO E MEU DINHEIRO


E dando continuidade ao assunto, jamais posso esquecer, e ainda bem que mudei.
Quando criança, se tinha uma coisa que eu gostava demais era de dinheiro.

Não consigo entender até hoje porque, se criança gosta mesmo é de brinquedos eu era apaixonada por dinheiro. Era negociante de primeira e teria me formado no assunto se meu pai não cortasse as rédeas.

Não conto as vezes em que me aventurei em sair pelo comércio, de loja em loja pedindo emprego de balconista ou vendedora. Era tão pequena que talvez fosse da altura do balcão das lojas. E claro, quem iria dar emprego pra mim? E ai de mim se meu pai descobrisse.

Mas para não dizer que não tive sucesso nenhum, um dia consegui um emprego na feira, numa banca de manga e banana. E eu toda feliz da vida fui chegando e me empregando na mesma hora e de olho no quanto iria ganhar no fim da tarde.

Estava eu lá de nariz empinado por traz da banca de fruta que mal se podia ver a não ser meus cabelos lindos e loiros e bem penteados pela minha mãe. E eu esperta que só eu mesma estou lá retirando as mangas e bananas das caixas e colocando na mesa comprida de quase três metros, quando chega alguém que eu conhecia muito bem: o meu pai.
E tudo foi tão rápido que não tive tempo de me esconder por baixo da bancada. Aconteceu que uma amiga da minha mãe foi pra feira e me viu e não acreditou no que estava acontecendo ali, e nem fez a sua feira foi direto na minha casa contar o acontecido pra minha mãe que já contou pra meu pai, que nem terminou de ouvir a história direito e saiu voando com destino a feira e no ponto da banca de mangas.
Tremi feito uma vara verde, não sei como não tive um piripaque naquela hora.

Meu pai foi chegando e arregaçando o braço da camisa para colocar o dedão bem no olho do dono da banca para que explicasse o que era que a filha dele estava fazendo por detrás daquela bancada!
Só sei que ele disse bem assim: Mas essa menina é sua filha? E meu pai mandou o meu chefe tomar vergonha e pegou pelo meu braço e lá se foi o meu emprego pro brejo e o dinheiro que eu iria receber também.
Em casa foi aquele sermão com minha mãe e sua ladainha? Está passando fome? Está lhe faltando alguma coisa? Pra que você quer dinheiro? Seu pai não lhe dar tudo que precisa? Cada pergunta, uma mais difícil que a outra.
Mas o meu negócio é que eu precisava de dinheiro pra comprar linha, botão e enfeites para fazer roupinhas de bonecas para vender para as minhas colegas na escola. E depois eu conto!

30 de setembro de 2013

A FEITICEIRA

´
Se existe uma pessoa que nasceu para ter ideia esta pessoa aqui era eu. 

Quando andava meio que calada, sem muita conversa, a minha mãe já sabia e dizia: tá pensando em que? Não me venha com mais uma das suas. 

No interior era assim, todo mundo se conhece, todo mundo sabe da vida de todo mundo. 

As crianças da minha idade iam pra escola sozinhas, não existia essas violências que vemos hoje, principalmente tarados. 

E se tivesse não eram malucos de colocar suas neuras em ação porque as filhas eram grudadas nas saias das mães, que não precisavam sair de casa para trabalhar e deixar os filhos sozinhos. 

E se acontecesse um negócio desses, o final era feio, que nem é bom contar. 

E nesse vai pra lá e vem pra cá, um dia encontrei uma feiticeira, que ao me ver parada admirando aqueles vestidos estampados, saias rodadas e comprida até os pés, cabelos longos e tranças que vinham até a cintura. 

E nesta admiração toda, se aproximou aqui da minha pessoa, tico de gente, que da vida não sabia nem o bê-á-bá e foi logo pegando na minha mão e destrinchando o meu futuro inteiro até o fim da vida, e da minha mãe e do meu pai e de todo mundo. 

Mal a aula acabou e sai correndo igual a um foguete para contar para a minha mãe tudo o que ela havia falado, que a minha mãe precisava ter muito cuidado porque meu pai estava não sei o quê, não sei o quê, e não sei o quê mais lá! 

E minha mãe que era muito católica, não quis saber desta história de leitura de mão e me disse que no dia seguinte quando fosse pra escola ia mandar meu pai me vigiar para saber se eu ia ficar de prosa com desconhecidos no meio da rua. 

E eu quando vi a feiticeira novamente, nem pensei duas vezes e sai em louca disparada, chegando na escola com o coração saindo pela boca. Ao terminar a aula, o retorno foi o mesmo e ninguém se incomodou porque eram acostumados a me ver feito um fogo de artifício. 

E chegando em casa, foi grande a minha surpresa porque a feiticeira estava lá para dar prosseguimento a retirada do encosto que dizia está com a minha mãe. Era um tal de pedir isto e aquilo, e eu nestas alturas dizia que quando crescesse seria uma cigana porque a feiticeira disse que eu sabia ler a mão, só precisava treinar e se não treinasse ficaria doida. Só sei dizer que meu pai entrou e acabou com o saravá que tinha arroz, feijão, farinha e ovo. 

Mandou recolher aquela feira e sair fora da sua casa. E eu ainda tive a coragem de perguntar: e agora como vou aprender a ler a mão? E meu pai só respondeu: Não tem juízo? E por duas ou mais semanas pra ir e voltar da escola era com meu pai de guarda costa. E meu pai quando dava uma ordem era pra ser cumprida. E toda vez que via pessoas lendo a mão, a carreira era feia! 


Porque a minha mãe contou pro padre que veio falar comigo para me dizer que se continuasse com esta história ia nascer em mim dois chifres preto e um rabo. Que eu fosse criar juízo e que rezasse 10 Pai Nosso e 10 Ave Maria, um Creio em Deus Pai e uma Salve Rainha. Então o negócio era mesmo sério. Cruz credo! Te Arrenego!

27 de setembro de 2013

O CIRCO CHEGOU


Se existe uma coisa que não posso esquecer era da minha adoração por circo.

Não sei como, mas eu era a primeira pessoa na cidade a saber que em breve chegaria um circo. A agitação na minha cabeça era a mil por hora.

O circo seria montado atrás da Igreja, lá era o espaço reservado para os circos. E todos os dias antes de ir pra escola passava pela rua da Igreja para ver se o circo já havia chegado. Por sorte meu pai também gostava de ir ao circo, então podia ficar sossegada que não perderia os espetáculos porque meu pai nos levava e com as regalias de sentar nos camarotes.

Chegou o circo, agora o meu sossego acabou: primeiro aqueles caminhões lotados de coisas lindas, aquelas mulheres que pareciam umas deusas, os malabaristas, os palhaços e eu com aquele fogo todo para assistir ao espetáculo com direito a teatro e tudo mais. Por fim, o dia do primeiro espetáculo. Os personagens do circo faziam uma apresentação pelas principais ruas da cidade, apresentando a sua elegância e beleza tendo na frente dois palhaços com uns cinco metros de altura, que só depois entendi que eram pernas de pau.

Não consegui retirar do armário os nomes dos circos que andaram na minha cidade. Sei apenas que eram títulos pra fazer a gente suspirar de emoção principalmente eu que não tinha outro assunto. A minha mãe não era muito chegada a tanto reboliço criado pelas minhas fantasias, ela era uma mulher muito ocupada com os assuntos da casa e administrar seus filhos que eram na base das rédeas curtas. Com a minha mãe não tinha muito lero lero e se brincasse até meu pai era colocado na sua lista de rédeas curtas.

Mas nos acompanhava ao circo e se dependesse dela, lá ninguém colocaria os pés. E foi numa dessas vezes que nasceu dentro de mim uma fantástica ideia. A de ser palhaço. Meu pai que a tudo cedia era o cúmplice das minhas confidências, mas por azar fui falar pra meu pai justamente na hora que minha mãe estava chegando: que meu pai fosse até o circo e me arrumasse pelo amor de Deus um emprego de palhaço no circo, senão eu adoeceria e nunca mais ia sair da cama!

Só lembro que meu pai arregalou os olhos e não teve tempo nenhum de me dar uma resposta porque a minha mãe deu um pulo com quatro pedras na mão, chamando meu pai de alcoviteiro e me perguntando onde estava o meu juízo. Tive vontade de responder que estava no livro que ela mandou de presente pra professora, mas calei, senão o castigo era na certa. Mas, resmunguei e minha mãe tinha uns ouvidos que benza a Deus.

Se uns nasciam surdos a minha mãe ouvia por dez. Apenas cochichei comigo mesma. “se não me deixar eu ser palhaço eu fujo junto com o circo”. E nem terminei de resmungar e a minha já havia entendido com o seu costumeiro: Como é que é mesmo esta história? Nisto foi chegando a comadre que sabia de tudo.

Comadre! Abra o seu olho, essa menina não sai de lá do circo, arrumou umas amizades por lá e é bem capaz que fuja mesmo! E diante do ocorrido lá se vai a minha mãe me puxando pelo braço para entrar de circo adentro onde não tinha uma alma viva pra ela dar o seu aviso. Metade do circo já havia partido e só restavam alguns homens retirando as lonas e as arquibancadas e lá se foi o meu sonho de ser palhaço que se evaporou em menos de uma semana.

26 de setembro de 2013

ESTA MENINA PARECE QUE NÃO TEM JUIZO!


Este personagem todo mundo conhece, quem não assistiu e ainda assiste o filme "Esqueceram de Mim"? Bom, mas a minha postagem nada tem a ver com o filme e nem com o seu personagem e como eu estava procurando uma imagem que retratasse o meu texto, encontrei esta bem parecida com uma pessoa que eu conheci na infância: cheia de invenções, de histórias e etc e tal.

Claro que esta pessoa era uma menina, e o personagem do filme um menino. Então nada tem a ver um com o outro. E para começar esta história pode ser que seja em dois ou dez capítulos, tudo vai depender da imaginação ou das lembranças que ficaram guardadas dentro do armário que o povo chamava de juízo.

Lembro que muitas vezes ouvi esta palavra juízo quando a sua mãe falava: "esta menina parece que não tem juízo". Não sabia do que se tratava, e na escola perguntava: professora o que é juízo? O que significa a pessoa não ter juízo? A professora mal informada respondia: é doida. E dali saia correndo aos berros e prantos para tomar satisfações com a mãe daquela que era a minha mãe: A senhora está me chamando de doida? e minha mãe respondia: você não tem juízo menina? onde foi que lhe chamei de doida? Daí eu respondia: A professora que disse. E saia minha mãe me segurando pelo braço até a escola para saber que história era esta. Pois o que ela não tinha era uma filha fraca do juízo. E chegando na diretoria da escola a encrenca estava feita: Quem chegou com esta história na escola tinha sido o pingo de gente que no caso era eu.

E minha mãe que era muito brava foi na livraria comprou um dicionário e me mandou entregar pra minha professora, que estava com uma cara do tamanho do mundo pra mim e eu desconfiada com a cara de amelia, que criei toda aquela confusão pelo menos agora tinha certeza que não era doida e minha mãe depois de uns bons conselhos nunca mais disse esta palavra ai: JUÍZO, pelo menos por enquanto.

16 de agosto de 2012

TOME JUIZO E DEIXE DE SER BESTA


Não tem mais nem meio mais, comigo é assim: ou é oito ou oitenta.
Esse bla bla blá, eu ouvi da dona Severina, saindo da bodega do seu Chico, tudo porque a filha do seu Chico chamou a sua neta de Pistoleira.

Quase desmaiei com a noticia!
Meu Deus do céu! A neta da dona Severina é pistoleira e eu não sabia?
Eu estava saindo da escola a caminho de casa quando me deparei com esse alvoroço todo.

Olhei pra um lado, olhei pra um outro a procura de algum cavalo, e não vi nada. Dei meia volta até a esquina e nada de cavalo, se curiosidade matasse não estaria aqui para contar esta estória, mas a minha intenção era somente ver de perto esta pistoleira armada até os dentes.

Sim, porque na minha santa imaginação aprendi com os mais velhos que onde tem fumaça tem fogo e onde tem pistoleira de certo deverá existir um cavalo e onde estiver esse bendito cavalo com toda certeza a pistoleira estará nos arredores.

Mas, em vão, olhei de um lado pra outro, a barriga roncando de fome porque exatamente naquela hora deveria está em casa almoçando e não na rua querendo esmiuçar a vida alheia.
E chegando em casa, depois de ouvir um belo sermão da minha mãe, querendo explicações de onde eu estava, porque eu tinha hora pra sair e hora pra chegar e se não chegasse 12 horas em ponto, nem te conto...
Bom era preferível chegar, porque o interrogatório não existia ouvido que suportasse, pelo menos o meu não.
-Esqueceu do caminho de casa?
Onde estava?
Com quem?
Fazendo o que?
E quem mandou a senhora fazer isto ou aquilo?
Está querendo o que?
Pois era bem assim, e aprendi desde cedo a não mentir, porque a minha mãe com certeza tiraria a minha estória a limpo.
E por este motivo tive que falar a verdade, estava dando uma volta no quarteirão da bodega do seu Chico, procurando uma pistoleira. Queria ver se era igual a dos filmes.
Mas que estória é essa menina? E contei pra minha mãe tudo que ouvi, que também contou pra meu pai.
E finalizando essa história, que não esqueço até hoje, lembro-me do meu pai que falou bem assim:
Você está indo pra escola, pra se formar em jagunça?
Porque quem anda atrás de pistoleira é jagunça!
Daí eu respondi! Não senhor, Deus me livre e aguarde!
Desde quando eu autorizei a senhorita a sair correndo atrás de pistoleira? Pare de andar se metendo onde não deve. Cuide da sua vida, e quando sair da escola venha direto pra casa ajudar a sua mãe, ouviu sua intrometida. E assim foi!
Maria de Lourdes

3 de maio de 2012

Moça Véia Não. Deus me livre e guarde!



É cada uma que acontece neste mundo, que contando ninguém acredita e eu que pensava que já tinha visto de tudo agora eu sei, afirmo e assino embaixo:
Eu não vi foi nada!
Pois nos tempos da Chica existia uma história de moça ter medo de não casar e ser chamada de moça velha que era um negócio sem explicação. Porque se casava mesmo sem gostar do dito cujo só pra não ser chamada de moça velha.
E eu com 10 anos já tinha esta preocupação. Já pensou quando eu crescer e não casar e me chamarem de bruaca, de moça veia, de caritó, de vitalina, o que é que eu vou fazer?
E o que seria da minha vida e do meu destino?
Lavar pinico, cuidar de sobrinho pras mães saírem pras festas, levar recados, vigiar namoro de sobrinha assanhada, lavar igreja, escutar fofoca, falar da vida alheia?
Deus que me livre, pois moça veia eu não fico porque vou ser freira. Pois estes eram os meus planos.
E eu com aquela cara de melancia, doida pra criar espinhas na cara, ficava de ouvidos afinados na casa da chica só pra ouvir as estórias das futuras moças velhas que por mais um pouco estavam virando titias.
E esta história era coisa sério mesmo, bastava uma discutir com a outra, que esta já gritava pros quatro cantos do mundo!
E que xingasse de qualquer coisa, menos desse nome aí:
( M-O-Ç-A V-E-I-A )!
Venha pra cá sua moça velha encalhada! E eu? No meu futuro não queria ouvir uma coisa dessas. E foi que um dia alguém ensinou uma simpatia pra umas que estavam pra chegar nessa estação de moça velha.
A meia noite em ponto, quando o relógio da Igreja batesse as 12 badaladas, chegava-se na porta da Igreja, chamava-se pelas almas e pedia um marido. O pior disso tudo é que tinha que gritar, não era um pedido feito em pé de orelha não. Se fosse era muito bom, assim ninguém ficava sabendo, o pior disso tudo é que o pedido era feito aos berros.
Eram as badaladas do relógio soando de noite afora e os pedidos juntos. E se alma tinha ouvidos, garanto que muitas delas ficaram surdas! Porque os sinos do relógio da Igreja da minha cidadezinha quando batiam as horas, se ouvia a kilometros, tão fortes que eram!
E cidadezinha pequena, já sabe, no dia seguinte a noticia corria solta!
E havia umas mais afoitas que para apressar mesmo o pedido, preferiam ir direto na fonte: ou seja, na porta do cemitério. O que era uma boa ideia, porque o repouso final ficava bem afastado da cidade e lá eu duvido que ninguém ia ficar sabendo.
Não sei se a simpatia funcionava, sei apenas que na Igreja quase todo santo dia tinha casamento.

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3 de fevereiro de 2011

SUMIU POR QUE



De vez em quando ficava fora de circulação, com a cara de Amélia, como dizia minha mãe, desconfiada e amarela. Na verdade eu e eu mesma sabíamos que tinha cometido alguma coisa errada e por este motivo não arredava o pé de casa. Pela primeira vez a Chica estava muito aborrecida comigo e eu prá falar a verdade estava mais ainda.
Aconteceu que um dia doei o baú da chica, simplesmente porque aquele baú tinha uma conta a acertar comigo e vice-versa.
É que na minha escola resolveram fazer um museu. E a equipe responsável passou nas salas de aula pedindo a colaboração dos alunos e eu como sabedora de tudo falei do baú da Chica e do seu vestido velho.
Doei também um pilão velho que a minha mãe tinha que deveria ter uns 100 anos de idade, mas que estava lá, servindo para preparar farofa de carne.
Lembro que a minha mãe assava as carnes na brasa e colocava no pilão com farinha e virava o que na minha cidadezinha do interior chamavam de paçoca de carne. Uma delicia!
E num belo dia a equipe aparece na casa da chica para ver o baú e pedir pra doação! Só que eu não sabia que isto seria o fim do mundo para a chica que me disse com todas as letras que quando morresse iria dentro do seu baú, para não ter que dar a ninguém.
E eu, na minha curiosidade sem limite, queria saber como seria que a chica caberia ali dentro!
Que a Chica tinha um xodó com esse baú, eu sabia. Mas a ponto de morrer e levar, aí eu não entendi foi nada. Me chamou de sem coração, de atrevida e eu virei uma tiririca!
Na minha casa, não aconteceu esse absurdo da minha mãe querer também levar o pilão quando morresse, mas falou que o pilão era da avó da tataravó dela, e que ela era o guarda do pilão, batizado com seu nome e que dali ninguém arrancava. Também esse pilão, acho que feito de angico devia pesar uma tonelada.
Conclusão. Todo mundo brigando comigo, eu só tinha mesmo que dar uma sumida e só voltar quando esquecessem a história.

13 de dezembro de 2010

A CASA DA CHICA ERA UM FUZUÊ


Fuzuê mesmo era a casa da Chica em época de festas! Principalmente as de fim de ano!
E eu, que adorava ver a Chica no meio daquela bagunça, também entrava de cabeça, para xeretar tudo que meus olhos e ouvidos tinham direito!
Para mim não existia divertimento melhor que a casa da Chica no meio de todos aqueles panos. Hoje compreendo que quem não nasceu para ser fofoqueira, nunca será uma, porque ali a fofoca corria solta!
E foi num desses dias de muito movimento que o marido da Chica rodou a baiana! e colocou as freguesas da Chica de porta a fora.
Vamos acabar com esse fuzuê, dentro da minha casa.
Deixem esta coitada dessa mulher em paz! deixem ela trabalhar sossegada, senão a partir de hoje aqui dentro não entra nunca mais uma pessoa com um pacote de tecido na mão!
Foi isto que ouvi, e como era a protetora da Chica, dei salva de palmas! em pensamentos é claro, pois a Chica estava se desmanchando em lágrimas de tanto desgosto! Até lembro quando ele deu o seu ultimato!
Ou essa máquina velha ou eu, dentro dessa casa! Só lembro mesmo que a Chica deu preferência a sua máquina!
E tudo isto era uma história sem fim dentro da minha cabeça. O ouvido da minha mãe era quem pagava o pato:
- Mamãe, o que é fuzuê!
O marido da Chica falou que a casa dela era um fuzuê!
- Mamãe, a senhora já viu a mulher trocar o marido por uma máquina?
A Chica falou que vai trocar o marido por aquela máquina velha!
- Se fosse pelo menos por uma nova!
E a minha preocupação do dia seguinte era não encontrar mais a Chica!
Mas para minha alegria, antes de sair para escola, dei uma passada por lá e encontrei os dois sentados na mesa tomando café!
Dei uma olhada e antes de tomar o meu destino perguntei:
- Chica, o que é fuzuê!
- Depois eu explico, disse ela! e fui pra escola!

5 de outubro de 2010

O CIRCO CHEGOU


Aquelas historias haviam tomado o meu tempo e por nada desse mundo queria sair de casa. Até medo da própria sombra eu tinha. Na escola o assunto era um só e todo mundo tinha uma novidade prá contar. Mas como tudo na vida passa, aquela assombração também passou!
Quer dizer, passou mais ou menos, porque agora sabíamos que quem quisesse ver assombração era só ir até a porta da Igreja a meia noite.
O guarda noturno era quem tinha histórias para contar, e a criançada adorava ouvir de olhos arregalados. E como o assunto do momento era esse, a imaginação ficava a mil por hora!
Se existiam pessoas que entendiam de lobisomem, papa figo e alma penada eram aquelas crianças, sem deixar de frisar bem, que eu estava bem no meio.
E para nos tirar daquela ilusão sem fundamento nenhum, na nossa cidade acabava de chegar um Circo! A maior maravilha do mundo estava ali! E a novidade corria solta pela cidade!


O circo chegou! O circo chegou! E dava gosto de ver aquele pessoal armando o circo e em três dias, começavam os espetáculos.
A expectativa era enorme. E enquanto armavam o circo, a tarde havia o desfile por todas as ruas, com carros alegóricos trazendo bailarinas, trapezistas. Todo aquele desfile tendo a frente um palhaço com pernas de pau e uma banda que deixava os espectadores ansiosos pelo primeiro espetáculo.
A minha cidadezinha que já era sinônimo de festas, agora era festa em dobro, e ninguém lembrava mais daquelas coisas que só serviam para nos assustar!



No terceiro dia da chegada do circo, à noite lá fomos nós para o Circo. Meu Pai fazia questão de levar todos nós para assistir as brincadeiras dos palhaços, os malabaristas e tudo que o circo pode proporcionar! E para minha maior alegria, a Chica estava junto!
Coisas que parecem tão pequenas, mas que ficam gravadas para sempre na nossa memória!

22 de setembro de 2010

PAPA FIGO? CRUZ CREDO


Aquela história de lobisomem deixou nos ares da minha cidade um quê de assombração! 
Principalmente nas crianças. Os comentários da criançada giravam em torno do mundo vai se acabar e era uma expectativa de deixar gente com os cabelos em pé. Algumas delas até sabiam quando e como seria.
E fossem perguntar quem disse, elas respondiam. Foi fulano que ouviu não sei aonde, que o mundo vai se acabar. 
E nesse clima de medo, tinha que surgir para apimentar os ânimos, as histórias do PAPA-FIGO.
E quem já não ouviu falar nesse personagem tão lendário, que já fez com que muita criança se recusasse a sair de casa, e até mesmo se tornar comportada, ou a comer aquela comida que não gostava tudo por causa do papa-figo?
Eu pelo menos, só eu e Deus sabe, por quantos momentos ruins passei com estas histórias na minha mente. Medo de ir prá escola, medo de voltar prá casa, e ser pega de surpresa por aquele ser horroroso com um saco nas costas, ou de repente o mundo acabar e eu estar longe de casa.
Casa da Chica? Nem pensar! Não queria saber da Chica nessas horas. Ficava em casa ajudando minha mãe. 
Varria a casa, tirava o pó dos moveis, lavava a louça, secava e guardava. Trocava as camas, nunca vi alguém tão interessada em ajudar a mãe, quanto eu.
É que o papa-figo só gosta de menina que não ajuda as mães. Que fala demais, assim diziam.

- Mamãe, a senhora já viu o papa-figo?

- Eu mesma não vi. Mas minha irmã que era muito mal educada viu.
É um homem barbudo, feio, com mais de 2 metros de altura e um saco enorme nas costas. Só não levou minha irmã porque meu pai chegou bem na hora!
Imagine o filme que passava na minha cabeça naquela hora. E lembro muito bem que ao deitar, não esquecia jamais de olhar dentro do guarda roupa, ou debaixo da cama se o tal papa-figo não estava por ali. Cruz credo!

Foi nuns tempos lá pra traz Que olhamos para a lua Com olhar de quem morreu Você dizia ó lua linda Eu respondia, ela é somente sua Era...