3 de fevereiro de 2011

SUMIU POR QUE



De vez em quando ficava fora de circulação, com a cara de Amélia, como dizia minha mãe, desconfiada e amarela. Na verdade eu e eu mesma sabíamos que tinha cometido alguma coisa errada e por este motivo não arredava o pé de casa. Pela primeira vez a Chica estava muito aborrecida comigo e eu prá falar a verdade estava mais ainda.
Aconteceu que um dia doei o baú da chica, simplesmente porque aquele baú tinha uma conta a acertar comigo e vice-versa.
É que na minha escola resolveram fazer um museu. E a equipe responsável passou nas salas de aula pedindo a colaboração dos alunos e eu como sabedora de tudo falei do baú da Chica e do seu vestido velho.
Doei também um pilão velho que a minha mãe tinha que deveria ter uns 100 anos de idade, mas que estava lá, servindo para preparar farofa de carne.
Lembro que a minha mãe assava as carnes na brasa e colocava no pilão com farinha e virava o que na minha cidadezinha do interior chamavam de paçoca de carne. Uma delicia!
E num belo dia a equipe aparece na casa da chica para ver o baú e pedir pra doação! Só que eu não sabia que isto seria o fim do mundo para a chica que me disse com todas as letras que quando morresse iria dentro do seu baú, para não ter que dar a ninguém.
E eu, na minha curiosidade sem limite, queria saber como seria que a chica caberia ali dentro!
Que a Chica tinha um xodó com esse baú, eu sabia. Mas a ponto de morrer e levar, aí eu não entendi foi nada. Me chamou de sem coração, de atrevida e eu virei uma tiririca!
Na minha casa, não aconteceu esse absurdo da minha mãe querer também levar o pilão quando morresse, mas falou que o pilão era da avó da tataravó dela, e que ela era o guarda do pilão, batizado com seu nome e que dali ninguém arrancava. Também esse pilão, acho que feito de angico devia pesar uma tonelada.
Conclusão. Todo mundo brigando comigo, eu só tinha mesmo que dar uma sumida e só voltar quando esquecessem a história.

14 de dezembro de 2010

É NATAL

Enfim, aqui estamos nós a espera do Natal e do Ano Novo! O clima Natalino se estende por todos os cantos do mundo. Quer queira ou não! É Natal!
No planeta parece que paira uma energia diferente!
Preparativos para as festas de fim de ano é o que não falta nas cidades, nas ruas, nas lojas, nas residências.
Dos corações, onde imaginamos que residem os sentimentos, emana um quê de solidariedade, de fraternidade, de compreensão, de alegrias, de recordações e de saudades.
Alguns também experimentam sensação de abandono, de solidão e em meio a tanto reboliço, se acham infelizes no Natal e nas festas de fim de ano!
E até dizem: esse vai ser o pior Natal que já vivi!
É porque na verdade, não pararam para refletir na verdadeira essência do Natal.
Natal que é a comemoração do nascimento Daquele que veio até nós, para nos ensinar a Lei do Amor.
Incompreendido, e mesmo em meio a tanto ódio, ainda rogou a Deus por todos nós, nos desculpando perante o Pai dizendo: “Pai, perdoai-os porque não sabem o que fazem”
O presente da vida, ainda palpita em nossas veias, e nenhum presente por mais adornado que seja pode ser comparado a este.
Muitas vezes o desemprego, a falta de oportunidades, faz com que na nossa mesa não tenha quase nada e isto nos deixa triste! O desencanto não deixa penetrar no coração a certeza de que muita gente também pode até estar passando por piores momentos: doentes e sem um lar. Não entendemos esta linguagem porque, não descemos do pedestal do nosso orgulho para compreender que eles também são como nós, filhos de Deus.
Saudades dos que se foram, saudades dos tempos que não voltam mais, a sensibilidade no Natal parece fluir e mesmo assim é tempo de recomeçar!
Se neste Natal, a solidão bate a sua porta, e não tem com quem comemorar! Aproveite o momento para usufruir as vibrações positivas que emanam de todos os cantos da terra!
Aproveite para se desfazer das suas mágoas, para perdoar aqueles que te feriram. E se nenhum presente você pôde dar a alguém, abrace-a através da prece.
Leve o reconforto aos corações que se despedaçaram, e se não poder encontra-los peça a Jesus que leve a sua prece para eles, onde quer que estejam!
E assim, construa um mundo novo a sua volta, para que a saudade quando o visitar chegue em forma de uma saudade bendita.
E a solidão seja uma arma poderosa, onde você aprenderá como direcionar a sua vida!
Com entendimento. Com serenidade. Com agradecimento ao Pai pela vida e pelas oportunidades de estar aprendendo e recomeçar!
UM FELIZ NATAL!
QUE A LUZ DE JESUS FAÇA-SE PRESENTE NA SUA VIDA!
E QUE O ANO NOVO, SEJA A REALIZAÇÃO DE SUAS ESPERANÇAS.

13 de dezembro de 2010

A CASA DA CHICA ERA UM FUZUÊ


Fuzuê mesmo era a casa da Chica em época de festas! Principalmente as de fim de ano!
E eu, que adorava ver a Chica no meio daquela bagunça, também entrava de cabeça, para xeretar tudo que meus olhos e ouvidos tinham direito!
Para mim não existia divertimento melhor que a casa da Chica no meio de todos aqueles panos. Hoje compreendo que quem não nasceu para ser fofoqueira, nunca será uma, porque ali a fofoca corria solta!
E foi num desses dias de muito movimento que o marido da Chica rodou a baiana! e colocou as freguesas da Chica de porta a fora.
Vamos acabar com esse fuzuê, dentro da minha casa.
Deixem esta coitada dessa mulher em paz! deixem ela trabalhar sossegada, senão a partir de hoje aqui dentro não entra nunca mais uma pessoa com um pacote de tecido na mão!
Foi isto que ouvi, e como era a protetora da Chica, dei salva de palmas! em pensamentos é claro, pois a Chica estava se desmanchando em lágrimas de tanto desgosto! Até lembro quando ele deu o seu ultimato!
Ou essa máquina velha ou eu, dentro dessa casa! Só lembro mesmo que a Chica deu preferência a sua máquina!
E tudo isto era uma história sem fim dentro da minha cabeça. O ouvido da minha mãe era quem pagava o pato:
- Mamãe, o que é fuzuê!
O marido da Chica falou que a casa dela era um fuzuê!
- Mamãe, a senhora já viu a mulher trocar o marido por uma máquina?
A Chica falou que vai trocar o marido por aquela máquina velha!
- Se fosse pelo menos por uma nova!
E a minha preocupação do dia seguinte era não encontrar mais a Chica!
Mas para minha alegria, antes de sair para escola, dei uma passada por lá e encontrei os dois sentados na mesa tomando café!
Dei uma olhada e antes de tomar o meu destino perguntei:
- Chica, o que é fuzuê!
- Depois eu explico, disse ela! e fui pra escola!

5 de outubro de 2010

O CIRCO CHEGOU


Aquelas historias haviam tomado o meu tempo e por nada desse mundo queria sair de casa. Até medo da própria sombra eu tinha. Na escola o assunto era um só e todo mundo tinha uma novidade prá contar. Mas como tudo na vida passa, aquela assombração também passou!
Quer dizer, passou mais ou menos, porque agora sabíamos que quem quisesse ver assombração era só ir até a porta da Igreja a meia noite.
O guarda noturno era quem tinha histórias para contar, e a criançada adorava ouvir de olhos arregalados. E como o assunto do momento era esse, a imaginação ficava a mil por hora!
Se existiam pessoas que entendiam de lobisomem, papa figo e alma penada eram aquelas crianças, sem deixar de frisar bem, que eu estava bem no meio.
E para nos tirar daquela ilusão sem fundamento nenhum, na nossa cidade acabava de chegar um Circo! A maior maravilha do mundo estava ali! E a novidade corria solta pela cidade!


O circo chegou! O circo chegou! E dava gosto de ver aquele pessoal armando o circo e em três dias, começavam os espetáculos.
A expectativa era enorme. E enquanto armavam o circo, a tarde havia o desfile por todas as ruas, com carros alegóricos trazendo bailarinas, trapezistas. Todo aquele desfile tendo a frente um palhaço com pernas de pau e uma banda que deixava os espectadores ansiosos pelo primeiro espetáculo.
A minha cidadezinha que já era sinônimo de festas, agora era festa em dobro, e ninguém lembrava mais daquelas coisas que só serviam para nos assustar!



No terceiro dia da chegada do circo, à noite lá fomos nós para o Circo. Meu Pai fazia questão de levar todos nós para assistir as brincadeiras dos palhaços, os malabaristas e tudo que o circo pode proporcionar! E para minha maior alegria, a Chica estava junto!
Coisas que parecem tão pequenas, mas que ficam gravadas para sempre na nossa memória!

22 de setembro de 2010

PAPA FIGO? CRUZ CREDO


Aquela história de lobisomem deixou nos ares da minha cidade um quê de assombração! 
Principalmente nas crianças. Os comentários da criançada giravam em torno do mundo vai se acabar e era uma expectativa de deixar gente com os cabelos em pé. Algumas delas até sabiam quando e como seria.
E fossem perguntar quem disse, elas respondiam. Foi fulano que ouviu não sei aonde, que o mundo vai se acabar. 
E nesse clima de medo, tinha que surgir para apimentar os ânimos, as histórias do PAPA-FIGO.
E quem já não ouviu falar nesse personagem tão lendário, que já fez com que muita criança se recusasse a sair de casa, e até mesmo se tornar comportada, ou a comer aquela comida que não gostava tudo por causa do papa-figo?
Eu pelo menos, só eu e Deus sabe, por quantos momentos ruins passei com estas histórias na minha mente. Medo de ir prá escola, medo de voltar prá casa, e ser pega de surpresa por aquele ser horroroso com um saco nas costas, ou de repente o mundo acabar e eu estar longe de casa.
Casa da Chica? Nem pensar! Não queria saber da Chica nessas horas. Ficava em casa ajudando minha mãe. 
Varria a casa, tirava o pó dos moveis, lavava a louça, secava e guardava. Trocava as camas, nunca vi alguém tão interessada em ajudar a mãe, quanto eu.
É que o papa-figo só gosta de menina que não ajuda as mães. Que fala demais, assim diziam.

- Mamãe, a senhora já viu o papa-figo?

- Eu mesma não vi. Mas minha irmã que era muito mal educada viu.
É um homem barbudo, feio, com mais de 2 metros de altura e um saco enorme nas costas. Só não levou minha irmã porque meu pai chegou bem na hora!
Imagine o filme que passava na minha cabeça naquela hora. E lembro muito bem que ao deitar, não esquecia jamais de olhar dentro do guarda roupa, ou debaixo da cama se o tal papa-figo não estava por ali. Cruz credo!

16 de setembro de 2010

CHICA E AS HISTÓRIAS DE LOBISOMEM


E assim a vida na minha cidade voltava ao normal. Durante o dia a criançada ia pra escola, as mães iam ao mercado fazer compras, outras iam pras lojas comprar tecidos para fazer roupas, outras iam pras boutiques ver as novidades, outras ficavam em casa cuidando do lar.
Os homens saiam pro trabalho, outros sentavam na pracinha pra falar de futebol e das mulheres feias e bonitas da cidade. À noite as moças saiam pra dar umas voltas na pracinha, outras iam se encontrar com o namorado, outros iam pra escola e outros iam pras igrejas.

Tudo na santa paz, porque o lobisomem não quis ficar por ali não.
Acho que ele não tinha quem assustar, e para não morrer de tédio se mandou!
Depois acredito que não ia trocar o seu juízo com uma muriçoca.
Voltei a freqüentar a casa da minha Chica do coração, era chegar em casa da escola, almoçar, fazer a lição e depois mostrar pra minha mãe se estava correta e em seguida:

- Mamãe posso ir ajudar a Chica?

- Vá, mas já sabe, cinco horas em casa!

A semana foi pequena para tantas histórias de lobisomem que a Chica tinha pra contar! Inclusive de um, que entrou na casa da mãe dela, e comeu a comida toda e deixou todo mundo com fome!
Eu já andava de olhos arregalados, assustada, olhando atrás das portas e embaixo da cama pra me certificar que por ali não tinha um escondido!

Outro, assustou uma vaca e a coitada sem ter para onde correr entrou na casa da irmã da Chica e tiveram que deixá-la ficar uns dias no quintal da casa, porque não tinha como tirá-la de lá. Nem mesmo o dono dela conseguiu!
Foi quando tiveram a idéia de desenhar um lobisomem num papel e mostrar prá vaca que convenceram ela a voltar pra casa!

Às cinco horas em ponto, se não estivesse a caminho de casa o portador vinha atrás:

- Como é. Não tem mais casa não?

- Ou quer que traga a mala?

E sem responder uma só palavra voltava pra casa. E se não voltasse no mesmo momento não poderia retornar pra casa da Chica no dia seguinte.
Na verdade estava curiosa pra saber de mais estórias de lobisomem.

Cruz credo! O terço da minha mãe não saia do meu pescoço!

Trem da Alegria
O Lobisomem


Foi nuns tempos lá pra traz Que olhamos para a lua Com olhar de quem morreu Você dizia ó lua linda Eu respondia, ela é somente sua Era...